Blockchain: uma nova etapa da revolução digital já começou

A Comissão Técnica de Controladoria e Contabilidade realizou, em 19 de abril, um café da manhã sobre Blockchain. O vice-presidente de Relações Institucionais do IBEF SP e economista-chefe do Mercado Bitcoin, Luiz Roberto Calado, apresentou os palestrantes Christian Geronasso, advisor of SAP Leonardo da SAP Brasil, e Marcelo Eisele, Digital Advisor Finance & Blockchain da Microsoft.

A tecnologia Blockchain foi primeiramente definida no código fonte original da bitcoin, moeda digital que é negociada sem a interferência de governos ou agências financeiras. Em função do surgimento na mesma época, os dois termos ainda estão intimamente ligados. Porém, não param de crescer as utilidades do Blockchain, tecnologia que visa a descentralização como medida de segurança.

Basicamente, o Blockchain consiste no compartilhamento de dados e registros, que criam um índice para todas as transações que ocorrem em um determinado mercado. Assim, é estabelecido consenso e confiança na comunicação direta entre as partes, sem a intermediação de terceiros.

Segundo Geronasso (da SAP), a tecnologia Blockchain já é adotada por fintechs, mas ainda pouca adotada nas corporações mais tradicionais. Mesmo assim, o assunto tem se tornado cada dia mais relevante. “O Fórum Econômico Mundial estima que 10% da economia global será movimentada por meio da nova tecnologia em 2027. Alguns países terão um índice de 100% nesse tipo de operação”, estima o executivo da SAP.

Revolução – Para ele, o Blockchain vai transformar diferentes setores. Será possível, por exemplo, ter conhecimento da nota de performance de um advogado, o que contribuirá para a contratação desse tipo de profissional. Atividades que envolvem contratos, como bancos e cartórios, por exemplo, serão beneficiadas pela tecnologia.

Haverá melhor controle dos dados, o que vai gerar mais confiança nas operações. Além disso, ela garante que as informações não sejam fraudadas e que os serviços estão sendo efetivamente realizados”.

Segundo o executivo, diferentes setores poderão adotar a tecnologia. Uma empresa agrícola poderá ter a sua produção orgânica monitorada. Outro exemplo é o segmento de utilities, já que a utilização de recursos renováveis poderá ser comprovada no segmento de energia elétrica.

A SAP oferece tecnologia Blockchain por meio da solução SAP Leonardo (batizada com o nome do “Homem do Renascimento”, Leonardo da Vinci), que integra novas tecnologias ao serviço de nuvem da empresa e oferece expertise e serviços de design thinking para ajudar a acelerar a transformação digital. “É importante uma solução integrada que também faça a comunicação com a área operacional. Assim, a inteligência artificial ‘aprende’ em tempo real”.

Nesse contexto de avanços tecnológicos, o executivo aponta outro conceito importante: o Digital Twin, que sincroniza dados digitais e operacionais de ativos industriais em um software. “Dessa maneira, é possível saber qual seria o comportamento necessário para uma quebra de produto, por exemplo. Ou ainda como uma plataforma de petróleo se comporta em uma tempestade”.

Como funciona – Com larga experiência na área de finanças e um dos co-fundadores da BlockchainAcademy, Eisele (da Microsoft) explica que a tecnologia estabelece que para a realização de uma transação é preciso a validação de todos participantes de uma rede. Isso é feito por meio de um consenso. Então, as transações são colocadas em blocos, de forma intercalada, e são gravados a cada dez minutos. “O consenso é como se fosse um órgão fiscalizador. Uma vez que a transação seja validada e registrada, ela é imutável”.

Segundo o executivo da Microsoft, essa sistemática do Blockchain também deve influenciar nas operações de contabilidade, já que os registros serão automáticos. Com isso, é possível consultá-los a qualquer momento.

Outra vantagem é a segurança. Com a realização de qualquer mudança no bloco, o hash criptográfico terá uma sequência diferente. “Cria-se um novo bloco e a operação sai da rede automaticamente. Para realizar o dolo, seria preciso fraudar mais de 51% da rede – um esforço que seria impossível”.

Eisele esclarece que as operações não estão centralizadas em uma instituição, como o Banco Central, por exemplo, o que costuma encarecer as operações tradicionais. “Com o Blockchain, o custo é mais baixo e é distribuído entre a comunidade”, explica o especialista. Ele alerta que é preciso definir a razão do uso do Blockchain. “Sozinho não faz sentido. Ele nasceu para que as informações sejam distribuídas”.

O Blockchain também pode ter um bom uso na área de saúde. A tecnologia pode ser utilizada para guardar imagens de exames, que podem ser compartilhados com médicos ou hospitais. As pessoas poderiam ter uma espécie de prontuário virtual para ser usado quando necessário. “Blockchain não resolve todos dos problemas do mundo, mas ajuda a solucionar vários”.

O executivo da Microsoft diz que as operações mais beneficiadas com o Blockchain são as transações do mercado internacional; o rastreamento de supplychain; e, ainda, a comprovação de posse e autenticidades.

Operações e testes – O consórcio de bloqueio bancário R3 desenvolveu a plataforma Corda que serve para processar e proteger as informações processadas pelos bancos. Para atender o segmento de serviços financeiros, a Febraban realiza testes com a própria plataforma Corda e também com a Hyperledger, da IBM.

“A própria Microsoft e o Bank of America desenvolveram um projeto piloto para eliminar a carta de crédito, o que reduziria o tempo da operação e eliminaria o uso de papel”, explica o executivo. Segundo ele, hoje a Microsoft oferece a sua nuvem para o desenvolvimento e processamento das operações de Blockchain.

Inclusão e digitalização – Eisele diz que ainda há no mundo cerca de 2,5 bilhões de pessoas que não utilizam o mercado financeiro de forma regular e formal. “As moedas digitais, que usam a tecnologia Blockchain, são uma solução para incluir essas pessoas, como refugiados que não têm documentos, por exemplo”.

Alguns governos estão focados no uso de Blockchain. A Estônia, pequeno país no nordeste da Europa, tem adotado a tecnologia para criação de documentos digitais. Outro exemplo é Dubai, a maior cidade dos Emirados Árabes Unidos. Até 2020, o planejamento é que todos os pedidos de visto, pagamentos de contas e renovações de licenças, que representam mais de 100 milhões de documentos por ano, sejam transacionados digitalmente usando Blockchain.

Reportagem: Renata Passos

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