Economia: Compasso de espera é unanimidade entre CFOs

A poucos dias do primeiro turno das eleições e com panorama político muito incerto, os CFOs ainda não conseguem projetar cenários. Apesar de alguns avanços apresentados em relação ao ano passado, as empresas, em sua maioria, seguem o mesmo ritmo da economia brasileira e estão em compasso de espera. Essa foi a tônica do almoço da Diretoria Vogal do IBEF-SP, realizado na última sexta-feira (21), e que contou com o patrocínio do Banco Alfa.

Veja o resumo dos depoimentos dos CFOs:

Beneficiado pelo protecionismo – Adolpho Neto, CFO da Embraco, disse que o mercado norte-americano, com grande representatividade para a empresa, apresentou um mês de agosto melhor. “Isso tem relação com a decisão do presidente Donald Trump de impor tarifas aos produtos chineses. Como temos fábrica no México, acabamos sendo beneficiados. O Brasil, no entanto, ainda continua devagar e apresentamos uma alta de 6% nas vendas de agosto passado em relação ao mesmo mês de 2017”.

Aumento da receita, mas ainda abaixo do projetado – Gilmar Camurra, presidente do Conselho de Administração da Invest Tech Brasil, disse que o Brasil está fechado para captação europeia ou norte-americana. “Ainda existe algo de opção nos ativos”, destaca. Conforme o executivo, como private equity, a Invest Tech Brasil conta com oito empresas do ramo de telecom e tecnologia. “Cinco empresas têm apresentado aumento de mais de 30% da receita em relação ao ano passado e três delas estão abaixo do exercício anterior. Mas se levarmos em conta o orçado, apenas duas delas estão acima das projeções”, esclarece o executivo.

Setor elétrico aguarda a próxima equipe de gestão pública – Britaldo Soares, presidente do Conselho de Administração da Eletropaulo, diz que já foi realizada audiência pública e já está estruturado o projeto de lei que prevê a reforma do setor elétrico, mas a mudança vai ficar para o próximo governo. “Não se espera que nada aconteça agora”, explica o executivo, ao acrescentar que verifica uma postura diferente da entidade reguladora para tratar de questões de muito relevância. Soares esclarece ainda que o aumento do consumo está tão tímido quanto o do PIB. “As questões meteorológicas têm ditado os preços”, explica. Ele diz ainda que o Brasil está perdendo tempo ao investir em térmicas no lugar de energia sustentável, como a eólica e a solar.

Crise impulsiona tecnologia, especialmente a inteligência artificial – João Paulo Faria, CFO da Microsoft, diz que em momentos de crise, o segmento de TI é beneficiado. “Há muito projetos surgindo em função da demanda de clientes por inteligência artificial, especialmente na área de tesouraria de bancos, além do setor de saúde e educação. Além disso, o setor de oil and gas tem buscado a AI para a área de segurança”, detalha. Ele reconhece, no entanto, que muitos investimentos estão paralisados por conta das eleições. Ainda assim, para o ano, a empresa estima um crescimento entre 10% e 15% em moeda estrangeira.

Paulo Mendes, CFO da SAP, diz que o ano está bastante complexo e o ciclo de venda está mais longo. Mas estima-se que o mercado global, incluindo o Brasil, tenha um crescimento de 10% ao ano até 2022, com destaque para a China. “O setor público está entrando na inteligência artificial”, explica.

Hardware depende do aumento do consumo – No segmento de hardware, o cenário ainda não é tão positivo. Segundo João Ribeiro, CFO da Dell, o segmento de vendas ao consumidor final deve apresentar queda de 5% no segundo semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2017. “O que está influenciado? A renda, o alto índice de desemprego e as incertezas”. Em relação ao mercado corporativo, o executivo diz que apresentaram alta no primeiro e no segundo trimestre, com crescimento de 32% e 52%, respectivamente. Porém, muito dessa alta deve-se ao aumento de 125% das vendas ao setor público no primeiro semestre, já que precisa antecipar as compras, pois há proibição de compras no segundo semestre em função das eleições. Já o mercado de datacenter talvez só recupere no segundo semestre de 2019.

Ribeiro, que ficou os três últimos meses em unidades na Europa e na Ásia, diz que é impressionante como o Brasil ficou para trás. “Se o país não voltar aos trilhos, eu não sei o que vai acontecer”.
Mudança nas vendas no segmento de bebida – Voltou a crescer o consumo de bebidas em bares e restaurantes, segundo Juan Alonso, CFO da Pernod Ricard. Por outro lado, as vendas no canal de autosserviço, em que os consumidores levam o produto para casa, estão caindo. “No caso das grandes redes de supermercados, a queda é ainda maior. A representatividade dessas empresas era de 65% e hoje é de 45% e perdem para os minimercados de bairro. Estamos preocupados com a desvalorização do real. Estamos esperando uma mudança”.

Altos e baixos no segmento de saúde – Luís André Blanco, CFO da Odontoprev, disse que o setor de saúde já apura uma queda de 3,1 milhões de beneficiários a menos desde 2014. “Por outro lado, no mesmo período, o segmento de odontologia ganhou 3,2 milhões de beneficiários”, detalha o executivo. Ele diz que o segmento de saúde já parou de cair e o odontológico continua crescendo.
Comunicação em transformação – No acumulado do ano, na contramão do consumo das famílias, houve aumento de investimento em publicidade, segundo Magali Leite, CFO do Grupo Bandeirantes de Comunicação. “Neste ano, a audiência na TV aberta andou de lado, exceto em função da Copa do Mundo. Mas nos últimos três anos, como as pessoas estão mais em casa, a audiência aumentou 8%. Por outro lado, houve queda na audiência da TV fechada em função da diminuição de 2 milhões de assinantes”, explica a executiva. Ela diz ainda que além do crescimento dos serviços de streaming, outros players estão avançando no serviço de mídia indoor, que hoje já é o terceiro maior segmento em investimentos. As TVs abertas e fechadas estão na primeira posição; a internet, na segunda.

Greve dos caminhoneiros impacta siderurgia – Rosana Passos de Pádua, diretora de auditoria interna, recursos humanos, risco e compliance da Companhia Siderúrgica Nacional, diz que o Instituto Aço Brasil previa um crescimento de 6,7% em 2018. Após a greve, a previsão foi revista para 4%. Já em volume de vendas, o aumento previsto passou de 13% para 5%. “A projeção para o segundo semestre é complicada. Como a CSN é verticalizada e o setor de mineração está bem em função do câmbio, isso ajuda a diminuir o impacto sofrido na siderurgia”, detalha a executiva, ao acrescentar que também houve crescimento na venda de cimentos. “Mas a greve de caminhoneiros foi um desastre nos negócios. O tabelamento do frete rodoviário também está impactando”.
Incertezas no sistema financeiro e no mercado corporativo – Grandes dúvidas motivadas pelas eleições fazem com que muitos investimentos sejam postergados, segundo Breno Perez, gerente de riscos do Banco Alfa. O executivo também chamou atenção à questão da abundância de fintechs que estão surgindo no Brasil. “Esse é um movimento que já ocorreu nos Estados Unidos e agora ocorre no em nosso país”, ressaltou o executivo.

Aury Ermel, CFO do China Construction Bank (CCB Brasil), diz que já são mais de 25 mil empresas brasileiras que fazem algum tipo de negócio com a China. Mesmo assim, há uma disputa grande por clientes. “Estou curioso para saber o que vai acontecer no Brasil. Também não é fácil explicar todos esses acontecimentos políticos ocorridos nos últimos anos”, ressalta.

José Roberto Securato, diretor e sócio da Saint Paul Advisors, diz que há atividades entre seus clientes, mas aquisições só devem ocorrer após as eleições, em função das incertezas. “Há uma expectativa mais favorável para 2019, não importa o candidato que vença. O Brasil tem grandes reservas”, destaca.

Balanço positivo – Para José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul Escola de Negócios, o balanço do evento foi positivo, já que das treze empresas que posicionaram a situação do seu setor, sete delas apontaram positividade. “A economia está em compasso de espera e isso se reflete nos números. O PIB não decola e o índice de empregabilidade caminha de lado, já que ainda são 13 milhões de desempregados e 29 milhões de pessoas com subempregos. Apesar de estarmos com a inflação baixa, 90% da população acredita que ela está alta. Então, vemos que a percepção do país está descolada da realidade”, diz o executivo, ao ressaltar que a maior dificuldade para a economia emplacar é a questão do desemprego.

Ações do IBEF-SP – José Cláudio Securato antecipou durante o evento que o Instituto deve lançar uma certificação para profissionais de finanças, destinada a CFOs, mas também a outros perfis, como executivos de Tesouraria e Controladoria.

Além disso, ele destacou que o IBEF-SP está com forte presença na área digital, com a rápida publicação de conteúdo dos eventos, o que tem gerado importantes insights. Em função de uma demanda dos associados, o Instituto deve passar a ter um posicionamento mais forte na mídia e, consequentemente, na sociedade. “Representamos uma parcela significativa do PIB do País”, destacou.

Prêmios – Nesse cenário, o executivo lembrou a importância do Prêmio Golden Tombstone, que teve grande pujança nas duas primeiras edições. “A terceira edição terá as inscrições abertas em novembro”.

Luis Carlos Cerresi, CFO Latam do Walmart.com, falou sobre o andamento do Prêmio Revelação em Finanças, que registrou 36 trabalhos inscritos. Já foram escolhidos os três finalistas, que farão uma defesa oral no próximo dia 8 e a premiação ocorrerá no dia 30 de outubro.

Marco Castro, presidente do IBEF-SP, também lembrou que está em andamento o processo da definição dos finalistas do Prêmio Equilibrista, cujo vencedor deve ser anunciado no dia 11 de dezembro.

Encerramento – Castro também agradeceu o patrocínio do Banco Alfa para a realização do almoço da Diretoria Vogal. Breno Perez disse que é muito importante estar junto do IBEF-SP ao longo de 17 anos. “Estamos dentro de um grupo seleto de executivos, onde há troca de informações e networking”, destacou.

 

(reportagem: Renata Passos)

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