“Foque nos controláveis”, ensina CFO da Monsanto para a América do Sul

dezembro 19, 2017 11:34 am Publicado por

Maurício Rodrigues, CFO da Monsanto para a América do Sul

Maurício Rodrigues foi o convidado do último encontro de mentoring realizado pelo IBEF Jovem neste ano. Em um bate-papo informal, contou sobre a carreira longa construída na mesma empresa, a postura do executivo frente a um processo de aquisição, e como é ser um dos poucos afrodescendentes em cargo de alta gestão em uma grande empresa no Brasil.

Seguindo os passos do pai, Maurício optou pela engenharia civil como graduação. Antes de ser diplomado pela USP, teve uma curta experiência na profissão em empresas do ramo, mas não se identificou com a operação. Logo foi seduzido pelo convite de estágio no banco holandês ING, uma das várias instituições financeiras e consultorias que rodeavam os universitários da Escola Politécnica, na tentativa de convencê-los a emprestar sua capacidade analítica para seus quadros. Maurício também trabalhou no banco BBA. “Naquela época, a carreira no mercado financeiro te dava visibilidade, era “sexy”. Talvez um pouco fora da realidade, mas interessante para um jovem de 22 anos.”

Ao trabalhar em bancos, sentiu falta de ver o resultado “tangível” de seu trabalho – um dos elementos que mais gostava na engenharia. Foi, então, que um colega de trabalho o incentivou a fazer uma reflexão sobre a carreira, 15 anos à frente. Assim, Maurício constatou que não desejava continuar em bancos, mas na área de finanças.

Incentivo à diversidade: “Queremos contribuir para que as pessoas olhem para a nossa companhia e vejam mais referências para se espelhar, oportunidades para crescer.”

Recebeu o convite da Monsanto, multinacional americana de agroquímica e biotecnologia agrícola, para ali construir uma carreira. Com um perfil de formação forte, e o desejo de aprofundar seus conhecimentos na área financeira, Maurício viu a oferta de um MBA em Finanças custeado pela corporação como um item irresistível do pacote de emprego oferecido.

Trabalho com propósito – “Trabalhar com agricultura me cativou desde o primeiro momento, voltei a ter o tangível. A experiência de estar em um campo de soja e ver o impacto direto do seu trabalho e da empresa na sociedade é algo muito forte”, observou o CFO. “Hoje, muito se escuta que os jovens querem trabalhar por propósito, mas já era assim naquela época. Aliás, é difícil trabalhar mais de 10 anos com algo que não te interesse ou com que você não se identifique com um objetivo maior.”

Plano de carreira – Outro diferencial que pesou na decisão de continuar por tanto tempo na mesma empresa, observou Maurício, é que a Monsanto trabalha o conceito de PDI – Plano de Desenvolvimento Individual. “Eu comprei essa ideia desde o início. Basicamente é você traçar o mapa da sua carreira. E isso não é algo inflexível, mas como o Waze (app de trânsito): você ajusta a rota conforme o percurso, mas sabe aonde quer chegar.”

Participantes do mentoring.

Maurício tinha certeza do destino que traçava naquele mapa. Ainda muito jovem, lembra de olhar para a sala do diretor financeiro e estar certo de que gostaria de sentar naquele lugar. Para isso, esforçou-se para aprimorar suas hard e soft skills.

De lá para cá já são 18 anos na Monsanto, durante os quais Maurício passou por 12 funções e teve a oportunidade de morar fora do País por quatro anos.

Correndo atrás – “Quando comecei, eu não era a pessoa mais qualificada do ponto de vista de finanças. Entendia bastante de tesouraria, pela minha experiência em banco, mas se focasse nisso teria uma carreira muito restrita “, contou. “Além disso, eu era uma pessoa tímida, até certo ponto. Na faculdade de Engenharia, não fomos treinados para fazer apresentações corporativas, diferente dos colegas que cursaram Administração. Então, sempre procurei fazer treinamentos nos itens que faltavam para que eu pudesse me qualificar para sentar na cadeira de CFO.”

Naquela época, o perfil ideal do líder de finanças era alguém com forte conhecimento contábil – essencial para conectar os pontos no negócio. Ciente disso, Maurício fez alguns cursos nessa área, e buscou ampliar cada vez mais sua base em finanças. “Se você precisa de um conhecimento, tem que correr atrás. Como engenheiro, eu sabia que, se entendesse a lógica daquele tema, conseguiria compreender muito mais rápido os demais conceitos. ”

Importância dos mentores – Ter um plano de carreira e mentores para orientá-lo foram elementos importantes para a evolução da carreira, contou Maurício. Na Monsanto, teve a sorte de ser orientado por profissionais experientes, que conheciam bem a empresa e ajudaram a nortear o seu crescimento. “Eles me diziam que se eu não expandisse as áreas de conhecimento para entender do negócio, como planejamento financeiro, crédito e contabilidade de custos, não conseguiria me tornar CFO; não no perfil que se imaginava o CFO do futuro. Há 18 anos, o perfil número 1 de finanças era alguém com formação contábil muito forte, e conhecimento em planejamento financeiro era um diferencial.”

A necessidade da atuação estratégica de finanças, gastando menos tempo com a coleta de dados, e mais tempo com a interpretação para oferecer informações úteis ao negócio, já era observada naquela época. “O CFO é cada vez mais o braço direito do CEO. E, para cumprir esse papel, é preciso ter conhecimento grande do negócio, gastar menos energia “batendo prego” para que os números saiam. Investir em análise de dados, se era visto como algo importante, será item indispensável nos próximos anos.”

Desafio de liderança – Em 2000, Maurício virou gerente da Tesouraria da Monsanto e, em 2003, foi promovido a tesoureiro, com uma equipe de 50 pessoas sob sua responsabilidade. Ele lembra que quando foi promovido para o primeiro cargo de gerência, tendo vários funcionários sêniores sob seu comando, aprendeu uma importante lição. “Em um primeiro momento, achava que deveria dar uma resposta dura para me impor. Gradativamente, entendi que esse não era o caminho; ao invés de conquistar, estava perdendo o respeito do time. Tentei puxar o trabalho dos outros para mim, mas estava em uma areia movediça: uma hora as coisas começam a afundar, você vai sendo sabotado”.

Maurício logo percebeu que, para fazer dar certo, precisaria dar um passo atrás e recomeçar. Os treinamentos que fez em liderança ajudaram muito nessa mudança de postura. “Comecei a integrar as pessoas e fui, gradativamente, atraindo-as para perto de mim. Assim, consegui reverter esse quadro e cativar as pessoas. Aprender essa lição, cedo e rápido, foi muito importante para o meu crescimento.”

Experiência internacional – Nutrido de um forte sentimento nacionalista, Maurício não tinha interesse em morar fora do País, apesar de ter estudado por um período curto no exterior. Contudo, seus mentores o alertaram de que a promoção para o cargo de CFO no Brasil não aconteceria sem a experiência de morar fora do País por alguns anos. Mesmo assim, Maurício foi crescendo, tendo sob sua responsabilidade cargos em Finanças e acumulando responsabilidades na América do Sul.

“Fui testando essa tese, buscando a promoção sem ter que morar fora do Brasil. Por fim, fui convencido, e quando a oportunidade surgiu fui morar nos Estados Unidos por quase três anos, liderando um time internacional. Foi uma experiência excelente e que trouxe vários benefícios, tanto profissionais quanto pessoais. Se eu já gostava do Brasil, passei a gostar ainda mais, mas também percebi o que podemos aprender com o conceito de cidadania de outros países.”

Após essa experiência, foi trabalhar no México por um ano e meio, sendo o responsável financeiro pela América Latina do Norte. Há três anos, realizou o sonho de se tornar CFO para o Brasil, e atualmente é o head de finanças das operações para a América do Sul.

Foque nos controláveis – Diante da maior aquisição global anunciada do agronegócio – entre Bayer e Monsanto – Maurício comentou os desafios desse momento e como lidar diante das incertezas desse tipo de situação. Afinal, quando há um processo de aquisição, existe a possibilidade de continuar ou não.

“Não está no meu controle a decisão efetiva de continuar trabalhando na nova empresa, mas trabalho essa mudança de forma positiva junto à minha equipe, durante as integrações, e me planejo para todos os cenários. Busco o máximo de conhecimento sobre a nova empresa para estar preparado para uma oportunidade, e também para ter a plena convicção do meu desejo de fazer parte da nova organização, de seus valores e cultura.”

Maurício contou que tem no escritório a frase “foque nos controláveis”. “É dedicar mais tempo e energia aos fatores administráveis, os quais você pode trabalhar para gerar resultado positivo, e se preocupar menos com o que depende da decisão de outras pessoas. É fazer a sua parte”, explicou.

Preconceito racial – Afrodescendente, a pergunta sobre se Maurício sofreu ou não com o preconceito surgiu de um dos participantes. O CFO respondeu que já passou por situações difíceis, mas talvez menos do que muitas outras pessoas enfrentam.

“Tive algo a meu favor, o fato de a geração dos meus pais ter brigado por algo que não tive que lutar. Minha mãe e meu pai estudaram em universidade federal, ela fez Direito e Letras e se tornou juíza, e ele se tornou engenheiro. Então, eu cresci dentro de uma condição social que me abriu muitas portas”, contou Maurício. “Mesmo assim, se eu dissesse que não existiu preconceito ao longo da minha vida, estaria mentindo. Na Politécnica, éramos apenas três ou quatro negros na turma. No MBA em finanças, eu era o único aluno negro por todo o período em que estudei.”

Ele contou que, ao crescer em uma sociedade moldada com o preconceito racial – e sobre o qual é preciso haver uma discussão mais aberta e franca -, comportamentos dessa natureza acabam sendo replicados pelo viés inconsciente. Para Maurício, sua mãe foi uma grande referência de força. “Quando eu era criança, se chegasse em casa chorando porque alguém me disse algo racista, quem corria risco de apanhar era eu. Minha mãe dizia: você tem que ir lá e se impor. Não pode ser uma pessoa frágil.”

CFO de uma grande multinacional, Rodrigues tem consciência de que pode contribuir para essa causa. Além de tratar do tema em entrevistas para revistas e jornais, envidou esforços para a criação do pilar racial dentro da política de diversidade da companhia, com o objetivo de abrir espaço para a discussão e aumentar a representatividade da população afrodescendente nos times. “Queremos contribuir para que as pessoas olhem para a nossa companhia e para outras empresas, e vejam mais referências para se espelhar, oportunidades para crescer. Só assim teremos uma situação de maior equidade. Com isso vem um choque, uma fricção. Mas, se continuarmos fazendo as mesmas coisas, não haverá melhoria desse cenário.”

Sonhos – Com relação ao futuro, Maurício comentou que gostaria de atuar como conselheiro de administração, posição para a qual já está se qualificando. Também tem ampliado sua participação em associações setoriais.

Fora da carreira executiva, um de seus sonhos é trabalhar com turismo. Outra possibilidade é contribuir por meio da atuação em órgãos governamentais. “Seria interessante trabalhar no governo, com algo relacionado a turismo, pois nosso País tem potencial para melhorar muito nessa área. O Brasil deveria ter mais a iniciativa privada trabalhando com os órgãos públicos. Gostaria de ver mais pessoas interessadas, que se disponham a contribuir com o setor público para a melhoria do País.”

Mentorings em 2018 – O programa retornará em 21 fevereiro de 2018. O encontro será com o vencedor do Prêmio Equilibrista em 2015, Guilherme Cavalcanti, CFO da Fibria.

(Reportagem: Débora Soares)