Tendências do crédito para 2018

dezembro 1, 2017 11:11 am Publicado por

Por Yan Cattani e Mariana Carvalhaes, economistas da Boa Vista SCPC

Com a deflagração de nossa última crise econômica, eram esperadas grandes mudanças nas variáveis econômicas, com cenários catastróficos traçados nas mais diversas frentes. Com a intensa deterioração do mercado de trabalho, isto é, forte queda da renda real e súbito aumento do desemprego, no mercado de crédito especificamente, aguardava-se além de considerável retração do crescimento do crédito, uma elevação em iguais proporções da inadimplência. Felizmente, não foi o que ocorreu, pelo menos não em escalas irremediáveis.

Considerando o ciclo de aumento do desemprego como estopim da crise – em janeiro de 2015 – a inadimplência geral do sistema passou de 2,82% e atingiu 4,05% em maio de 2017, seu ápice. Contudo, vale destacar que desde outubro do ano passado, os atrasos vêm ensaiando queda, com números oscilando entre 3,80% e 3,90%. Este aumento, entretanto, está diretamente relacionado ao aumento expressivo no ritmo da inadimplência PJ, que dobrou o nível de inadimplência – saiu de 1,99% em janeiro de 2015 e atingiu 3,99% em maio último – enquanto a inadimplência PF se manteve praticamente estável, com média do período de 4,03%.

Conforme já comentado em artigo anterior, enquanto o represamento da inadimplência PF ocorreu devido à menor demanda, no caso das empresas a diminuição da oferta foi o fator determinante. Agora, passadas as piores turbulências, o que devemos esperar para o cenário de crédito e inadimplência?

A pergunta parece já ter sido respondida. Observando os resultados dos balanços consolidados dos cinco maiores bancos, é possível notar uma tendência predominantemente de crescimento do crédito PF com redução da inadimplência generalizada.
Dentre os grandes bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander), o Itaú manteve sua posição de maior carteira de crédito[1], totalizando R$ 539,1 bilhões no 3T17. Ainda assim, o saldo representou uma queda de 5,0% em relação ao 3T16, sendo a redução da carteira de PF de 1,8% (influenciada em especial pelo crédito de veículos – queda de 12,7%) e 10,0% de retração das linhas PJ (puxada em especial pelo segmento de grandes empresas), mantidas as bases de comparação.

A carteira do Bradesco atingiu R$ 486,9 bilhões no 3T17 – queda de 6,7% ante o 3T16, influenciada pelo recuo de 10,3% da categoria PJ no período, sendo contrabalanceado pela pequena elevação de carteira PF, a qual apresentou um avanço de 0,7% no período (R$ 172,2 bilhões) – esta puxada preponderantemente pelo crédito pessoal consignado e financiamento imobiliário.

O banco Santander, por sua vez, foi o destaque, dado que apresentou crescimento de 8,2% no 3T17 frente ao 3T16 – inclusive com recorde no crescimento para o trimestre, o maior para o período desde 2011. Seu bom desempenho foi puxado pelo segmento de pessoa física, que apresentou alta de 15,6% na variação interanual, totalizando R$ 102,2 bilhões, impulsionado em especial pelas categorias de cartão de crédito, consignado e rural. Levando em consideração somente as linhas voltadas ao consumo, a carteira somou R$ 39,1 bilhões ao final de setembro de 2017, crescimento de 15,7% em 12 meses. A carteira de grandes empresas (que representa cerca de 34% da carteira total, muito próxima da proporção da carteira PF) registrou queda de 4,5% em 12 meses.

Com relação aos grandes bancos públicos, o Banco do Brasil (BB), apresentou comportamento similar ao dos privados. Na carteira de crédito expandida do BB (a qual atingiu R$ 677 bilhões) houve diminuição de 7,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, refletindo a queda da modalidade de pessoa jurídica, que recuou 15,5% em relação ao 3T16, contrabalanceada pelos melhores desempenhos das linhas PF e Agronegócio, que cresceram 1,2% e 0,8% em 12 meses, respectivamente.

No caso da Caixa Econômica Federal (CEF), a tendência é diferente devido à grande composição de crédito habitacional em sua carteira. Com uma carteira de crédito de R$ 715,9 bilhões, a instituição apresentou avanço de 3,5% em 12 meses até o 2T17, sendo 7,0% o aumento do crédito imobiliário no período.

Com relação aos dados de inadimplência, foi possível notar uma trajetória de queda nas demonstrações de resultado de todos os bancos. Considerando os bancos privados, o Itaú apresentou um índice de inadimplência de 3,2% no 2T17 e 3T17, menor patamar desde o 1T16, sendo nível de 5,1% o nível PF. De forma mais preponderante, a queda das categorias PJ de pequeno e médio porte e grande porte, apresentaram redução de 0.2 p.p., atingindo níveis de 4,9% e 1,0%, respectivamente.

O Bradesco também reverteu a trajetória de alta de seu índice, com atual índice no patamar de 4,8%, valor 0.8 p.p. menor que o observado um ano antes.

Considerando a inadimplência do Santander, a mesma seguiu estável em 2017, atingindo o patamar de 2,9% no último trimestre, reduzindo 0,6 p.p. frente ao resultado do ano anterior, sendo 3,7% a taxa para categorias PF e 1,9% para PJ – reduções anuais de 0,6 p.p. e 0,9 p.p.
No caso dos bancos públicos, o BB que havia revelado trajetória de alta da inadimplência nos últimos tempos, também melhorou seus atrasos, com resultados idênticos ao registrado no 1T17, de 3,9%. No caso da CEF, a inadimplência encerrou o segundo trimestre em 2,51%, uma redução de 0,69 p.p. em 12 meses.

Em resumo, os resultados dos Top cinco bancos brasileiros mostram já a aposta das instituições num cenário de retorno do consumo das famílias, mas ainda mais importante, uma provável redistribuição para as linhas PJ, uma vez que a diminuição dos níveis de inadimplência para a categoria vem ocorrendo a largos passos. E ainda mais, somados a um cenário de melhores expectativas de juros e inflação, vigência de novas leis trabalhista, entre outros fatores, talvez não seja exagerado dizer que o crédito às empresas poderá, possivelmente, retomar já no próximo ano, a importância de outrora.

[1] Considerando a carteira de crédito ampliada – que inclui as outras operações com risco de crédito, ativos de adquirência, avais e fianças.