CFO tem papel fundamental em momento de crise

O momento atual de crise e a recuperação dos negócios estão em pauta nas empresas ao redor do mundo. Essa discussão reflete diretamente no papel das lideranças, que devem ter a ambidestria como nova mentalidade colocando, principalmente, o CFO dentro de um papel fundamental nos negócios, aliado ao CEO na tomada de decisões. As perspectivas para a recuperação dos negócios foram debatidas em webinar do IBEF Mulher, realizado no dia 4 de agosto e moderado por Maria José De Mula Cury, sócia na PwC Brasil e VP do IBEF Mulher.

Na ocasião, Altair Rossato, CEO da Deloitte Brasil, mostrou o impacto do panorama atual no mundo todo. “Estamos em uma crise sem precedentes, onde a gente vê em todos os continentes um impacto profundo na economia. Salientamos que o impacto foi muito grande e imediato, o que nos fez mudar de ação e de atitude”, diz. No Brasil, a Deloitte fez uma pesquisa sobre respostas à pandemia da COVID-19, e os resultados identificaram que os primeiros 100 dias da crise geraram efeitos profundos nas empresas. “Experimentamos, com nossos clientes, empresas formalizadas, exercitando comitês de crise, a parte humana, e a contribuição com a sociedade. Tivemos uma habilidade de respostas rápidas e resiliência diante de outras culturas, o que nos dá esperança de uma recuperação mais rápida desses negócios”, destaca Rossato. 

Na pesquisa, 67% das empresas indicaram que teriam redução das receitas e de vendas. “Isso mexe fortemente na parte financeira e nos planejamentos das empresas”, explica Rossato. Além disso, 68% sinalizaram que passariam por corte de custos e despesas, e 56% disseram que poderiam ter problemas de inadimplência dos clientes. Por fim, 74% das empresas acreditam que a recuperação virá entre 6 e 18 meses. “Já estamos vislumbrando alguma recuperação. Óbvio que ela virá mais forte em 2021. Mas ressaltamos a importância de fazer planos e persegui-los e, nesse momento, as empresas brasileiras reagiram bem”.

Rossato enfatiza a importância da execução de planos de retorno, que são essenciais para que a empresa saiba qual caminho seguir em momentos de imprevisibilidade. “É um momento mais difícil, por isso é preciso manter resiliência no plano para aumentar a assertividade”, diz. “Teremos que exercitar mais cenários para sermos assertivos nas decisões”, complementa. Apesar de muitas vezes os impactos financeiros serem conhecidos dentro das companhias, Rossato ressalta que a atuação dentro de um planejamento orçamentário e decisões de capital de giro, por exemplo, além da qualidade de informações para a tomada de decisões e transformação da estratégia de custos, devem ter visão de médio e longo prazo. “Nunca tivemos uma oportunidade tão grande para transformar o impacto de custo”, destaca.

Papel do CFO – O impacto financeiro será mais preciso e mais forte diante do atual cenário, e por isso, o papel do CFO também deve ser mais evidente. “No curto e médio prazo, teremos mais CFOs se tornando CEOs pelo momento que estamos passando e pela habilidade desses profissionais”, diz Rossato. Ele acredita que na recuperação, em geral, há desafios que exigem abordagens simultâneas, e para isso as empresas precisarão de uma governança mais robusta e de um compliance mais rigoroso. “Nas minhas conversas com CEOs de grandes e médias empresas, uma questão que mais me surpreendeu e me preocupou, que talvez os CFOs deveriam ter um olhar diferenciado, é sobre a cadeia de suprimentos e as operações. Teremos mudanças significativas que podem eliminar empresas de seus segmentos e trazer novos players“, complementa Rossato.


Ele aborda ainda o perfil do novo cliente, que exigirá também um novo formato de atendimento. “Há um repensar total no que tange o cliente”, destaca. Tecnologia e meios digitais também são pontos destacado por Rossato como temas importantes a serem discutidos dentro das empresas. “Ainda assim, temos que pensar também em não perder o olhar para gestão de pessoas e, em um ambiente digital, isso requer um esforço maior para colocar humanismo nas relações”, alerta.

Ambidestria – Rossato levanta ainda o conceito de ambidestria como a capacidade do gestor de olhar mais de uma coisa ao mesmo tempo. “Temos que ter foco no fluxo de caixa, em exercícios de previsibilidade, mas, mais do que nunca, vai ser fundamental ter um novo modo de pensar. Vamos precisar pensar diferente, junto com outras pessoas. A ambidestria é trabalhar curto e longo prazo ao mesmo tempo; olhar inovação e a operação tradicional; otimizar custos e estimular investimentos; liderar polos que não necessariamente conversam”, explica. 

Para ele, a habilidade do executivo, especialmente de finanças, que tem uma visão mais pragmática de resultados, vai precisar ser a de olhar o resultado e torná-lo sustentável. “Para isso, é preciso provocar o CEO para olhar as duas coisas”, diz Rossato. Ele falou ainda sobre mudanças de cultura e questionou como, no atual modelo virtual, é possível ter atitudes no dia a dia que mudem a cultura de uma empresa. “O nosso papel de líderes nesse momento é fundamental na mudança de cultura”, complementa. 

Tomada de decisão – Rossato destaca que no fim do dia, o CEO é quem toma a decisão, mas ele não faz isso sozinho, e precisa ter a cabeça aberta para perguntar e saber puxar outras decisões e opiniões e, assim, fazer o direcionamento de consensos. “Para isso é preciso ter suporte da governança e disciplina. Tenho reunião one a one com executivos e isso é rico para todos, sempre saímos melhor de uma conversa dessa. É sempre importante não se isolar, e essa é uma iniciativa do próprio CEO: buscar na sua governança esse apoio e suporte”, complementa.

Diversidade de gênero – A Deloitte atua na diversidade de gênero com iniciativas formais – o programa Delas, liderado pela sócia Angela Castro – que, inclusive, ajudaram a colocar a empresa entre as dez principais grandes corporações que atuam no Brasil a receber o reconhecimento GPTW Mulher 2020. “Precisamos colocar objetivos e o olhar que exercitamos é de colocarmos força na questão do gênero. Quando traçamos metas, tenho um processo para olhar para a questão, pois é um KPI que muda a cultura, e para isso é preciso mudar a atitude”, explica Rossato. Ele ressalta que o papel do homem é se engajar nessas discussões. Rossato explica que a iniciativa para mulheres não é feita só por mulheres.

Para ele, o que falta para as mulheres alcançarem as lideranças, contudo, é o tempo de mudança de cultura. “Na verdade, é nisso que precisamos trabalhar, na questão cultural”, enfatiza. Dentro de uma série de iniciativas do Programa Delas, há, inclusive, frentes que contam com o apoio ativo de homens – especialmente, trabalhando com “vieses inconscientes”. “Pedimos aos executivos homens que, por exemplo, comecem respeitando o outro lado de suas casas – onde há uma mulher que também trabalha para ser bem-sucedida em outra empresa”, diz.


Profissional do futuro – Rossato destaca que o profissional do futuro não será mais o deep generalist, muito valorizado por muito tempo, mas sim especialistas que conheçam profundamente de determinados assuntos. “Quanto mais especialista a pessoa for, vai ter um nicho de atuação mais seguro e será procurado. Isso vai ser um diferencial”, diz. Nesse sentido, Rossato se diz bastante otimista com o cenário atual, e avalia que as relações humanas mudaram, e a partir de agora as empresas terão outro olhar para esses assuntos. “Estamos experimentando jeitos diferentes de atuar, altamente produtivos trabalhando de casa, melhorando a qualidade de vida, e o equilíbrio da saúde, do corpo e da mente, com a proximidade com a família, olhando para espaços melhores e mais confortáveis. Vejo muitos profissionais interessados, fazendo cursos virtuais, buscando sua especialização e se preparando para o futuro”, complementa.

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