Expectativas para final do ano são mais otimistas para executivos da Diretoria Vogal

O terceiro almoço da Diretoria Vogal do IBEF-SP deste ano, realizado na última sexta-feira (20), reuniu executivos para discutir os resultados de suas diferentes áreas de atuação e perspectivas para o fim do ano e 2020. O presidente do IBEF-SP, Serafim Abreu, abriu o evento dizendo que na última reunião todos saíram com otimismo moderado e queria ouvir os setores novamente e as perspectiva para final do ano e início de 2020.

Desta vez, a rodada foi conduzida pela 1ª vice, Luciana Medeiros, que antes passou pelo balanço dos eventos realizados pelo Instituto no primeiro semestre, totalizando 30 encontros com 1.386 participantes. Em seguida, os patrocinadores do almoço, Carrefour e Refinitiv, forma prestigiados e tiveram a palavra. Sebastien Durchon, CFO do Carrefour, ressaltou a importância da troca com as empresas em um evento como o organizado pelo IBEF-SP. Já Daniel Buttino, da Refinitiv, apresentou a empresa, que é nova no mercado, fruto da venda da unidade de Financial & Risk da Thomson Reuters para a BlackStone.

Ainda no início do evento foram informados os próximos encontros que serão realizados este ano pelo IBEF-SP, com destaque para o 16º Prêmio Revelação, que teve 54 inscritos e cuja premiação ocorre no dia 4 de novembro, e para a 36ª edição do Prêmio Equilibrista, que será realizada em 11 de dezembro

Rodada de setores — Ao iniciar a rodada de setores, Luciana Medeiros conduziu os diretores a responder uma pesquisa rápida sobre as perspectivas macroeconômicas, sendo que a maioria dos presentes respondeu que a perspectiva para o cenário econômico no último trimestre foi estável, seguida por otimista. Outra pergunta foi a respeito da projeção do câmbio para dezembro de 2019, que para a maioria dos executivos terá uma manutenção a R$ 4,10. Já a última pergunta foi acerca da projeção de Selic para o fim do ano, que deve ficar em 5% na visão dos diretores.

Dentro desse panorama, Rafaela Araújo, diretora de relacionamento com estruturadores de ofertas da B3, apresentou dados sobre o mercado de capitais, iniciando com otimismo a rodada dos setores. “No último almoço, realizado em junho, comentei que à época tínhamos seis ofertas de IPO que captaria R$ 9 bilhões. Agora, com números atualizados, temos 22 ofertas que arrecadaram R$ 55 bilhões. Foi um grande aumento nesse meio tempo e temos boas perspectivas para final do ano”, destacou Rafaela. Falando em mercado de capitais mais abrangente, até o momento foram captados R$ 227 bilhões, quase alcançando o número do ano passado, que chegou a R$ 230 bilhões. “Isso que reforça essa perspectiva positiva”, reiterou.

A relevância do investidor local também aumentou, segundo Rafaela, com 1,3 milhão de pessoas físicas investindo em bolsa. Ela reforçou que o número ainda é baixo, mas em relação há dois anos, dobrou. “O volume financeiro médio negociado em bolsa foi de R$ 19 bilhões, superando o ano passado, e o índice Bovespa bateu recorde este ano, ou seja, estamos positivos”, complementou.

Ainda no setor financeiro, mas com uma visão menos otimista, Silvia Valente, diretora no Goldman Sachs, discorreu sobre o desafio que os bancos tradicionais hoje passam com o avanço das fintechs no mercado brasileiro. “Além do cenário macroeconômico, que está desafiador, complexo, apesar de promissor e positivo, temos que enfrentar um saldo está abaixo das expectativas por conta da persistente taxa de emprego em dois dígitos, progresso insuficiente em termos de deterioração fiscal, retenção da taxa de juros e pressão de redução das taxas bancárias dada a competitividade com as fintechs, que estão conquistando o espaço com ofertas de crédito sem garantia, taxas mais enxutas e sem muitas exigências regulatórias”, disse.

Para ela,  as instituições tradicionais terão que se adequar às novas tecnologias e procurar por alternativas que reduzam o processo burocrático da oferta de serviços financeiros, com menos custos. “Sou favorável à competitividade. Mas é desafiador”, ressaltou Silvia.

Infraestrutura e indústria de base — Britaldo Soares, presidente do conselho de administração da Enel, iniciou as discussões sobre infraestrutura destacando a necessidade de movimentações no Congresso Nacional para que projetos saiam do papel e permitam a modernização e abertura do setor de energia. “Ainda há um esforço grande sendo feito, mas na hora de tratar do ponto de vista regulatório e legal, há uma série de aprovações que dependem do governo. Para quem está no mercado de energia incentivada, se espera uma convergência nos preços de energia no mercado livre, que deve crescer dos 30% atuais para 50%, e se possível, o plano inicial trata da abertura total do mercado até 2028, o que levaria a convergência dos preços a um patamar mais adequado, promovendo escolhas ao consumidor”.

Ainda no segmento de infraestrutura, Rosana Pádua, diretora da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, destaca que seu negócio é complexo por envolver o setor de mineração, que está positivo, e o de siderurgia, que é o atual desafio da companhia. “Não sentimos uma recuperação mais forte desse mercado. Um ponto de atenção que também levanto é a dificuldade de reter talentos na área de finanças. Esse material humano está sendo buscado de forma voraz e nossa experiência é de perder gerentes. Isso está se intensificando, o que pode demonstrar uma expectativa de crescimento por parte das companhias, que estão recompondo suas estruturas”.

Sonia Fanhani, diretora na Komatsu Brasil International, empresa que também atua na área de mineração, florestal, e setor de construção, falou sobre uma perspectiva positiva de crescimento deste último mercado, que sofreu queda brutal de 2014 em diante e começou a se recuperar no ano passado. “Este ano está sendo positivo, mas temos missão de atender clientes exigentes”, disse.

Consumo — No setor de consumo, Adolpho Neto, CFO para a América Latina da Whirlpool Corporation, destacou que a empresa é líder na venda de produtos das marcas Brastemp e Consul, com a venda ao consumidor final de produtos como geradores, fogão e lava-roupa crescente nos primeiros meses do ano, enquanto as demais categorias registraram queda. O total ponderado do setor é estável, beirando a queda nas vendas. “A empresa está se preparando para crescimento moderado no 4º trimestre, pois olhamos com otimismo moderado o fim do ano, além das melhorias de produto e projetos estratégicos”, disse Neto.

Falando da indústria de cafés, Cesar Jordão, diretor financeiro e administrativo da Melitta, destacou que apesar da crise, o mercado cresceu no Brasil, principalmente porque pessoas começaram a se alimentar mais em casa. “Desafio da indústria também é, devido à grande safra de café, os preços da commodity, que reduziram significativamente, fazendo com que indústrias abaixassem seus preços. O consumidor compra mais, se alimenta mais, o mercado cresce em volume, mas cai em valor. Como manter a lucratividade?”, questionou. Para ele, o ano de 2020 será de continuidade desse cenário da indústria de café, apesar da forte tendência de consolidação.

Fechando a rodada sobre o setor de consumo, José Filippo, diretor financeiro e de relações com investidores do grupo Natura, falou que a marca segue mantendo liderança, ganhando market share, mas o câmbio ainda atrapalha, pois boa parte dos custos da empresa estão associados ao dólar. “Estamos conseguindo manter a margem. Nosso segundo negócio na América Latina é a Argentina. Também temos destaque no México e na Colômbia, que tem tido resiliência na atividade. Atuamos hoje no mercado de venda direta, mas temos canais fortes de varejo, e o e-commerce também cresce. O desafio é harmonizar esses canais”.

Varejo Sebastien Durchon, CFO do Carrefour, destacou que a indústria de varejo este ano passou por momentos distintos, de desaceleração do consumo desde março, com o varejo alimentar apresentando queda em volume. “Há uma combinação de dificuldades econômicas. A consequência disso é que não há crescimento da renda, junto a uma inflação em commodities. O cliente pessoa física não tem dinheiro, então reduziu o consumo. Estamos nesse momento desafiador no curto prazo, e o otimismo é moderado”. Ele ressaltou que esse cenário não deve desaparecer de imediato, mas depende do investimento das empresas. “Nossa leitura é que há sinais de melhora, já que a taxa Selic teve uma queda expressiva, o que deveria incentivar investimentos. Também estamos lançando negócios e iniciativas para ganhar novos clientes”, complementou Durchon.

Já na visão do atacado, Rubens Batista, CFO do Grupo Martins, disse que o foco da empresa está em clientes varejistas pequenos, sendo que mais de 50% das vendas são feitas em cidades menores de 100 mil habitantes, mas ainda assim, a visão não é diferente. “O primeiro trimestre foi maravilhoso e o segundo não foi bom. No terceiro trimestre, tivemos uma decisão interna de proteger margem para garantir lucro. Neste mês de setembro, sentimos um voo para qualidade. Indústrias que estão com visão distante começaram a discutir negócio conosco. Alguns clientes concorrentes estão com problema de crédito e outros decorrentes de práticas pouco ortodoxas envolvendo impostos. Nesse quesito, nós, como CFOs, temos uma responsabilidade grande de participar dessa agenda de sustentabilidade em nossas empresas, que envolve também correção fiscal, demandando mais rigor na análise de empresas com as quais nos relacionamos”, destacou.

Setor hoteleiro — Mauro Rial, CFO América do Sul da Accor, grupo francês de hotelaria, apresentou visão otimista sobre o setor. A empresa possui, na América do Sul, quase 400 hotéis, sendo o Ibis é a principal marca. “Estamos atuando em todo o setor de serviços, entrando em shared economy com empresa de apartamentos de alto padrão, e atuando na área de distribuição de tecnologia”, destacou. Ele disse que a o desafio do setor é multiplicar as marcas. “Temos 40 marcas e temos que diferenciá-las. Além disso, o setor passou por crise conectada à situação da economia como um todo, pois há essa correlação direta”.

Rial ressaltou que o setor hoteleiro está trabalhando com uma estabilização do valor de diárias há 10 anos, que não foram ajustadas pela inflação. “Em 2017, a média de ocupação do setor era 47%. Ou seja, metade dos hotéis estavam vazios. Este ano, a boa notícia é que a ocupação está acima de 60%, portanto, há pressão para incremento de preços. Estamos esperando o que vai acontecer no começo do ano”.

Viagens – Alex Malfitani, CFO da Azul, destacou semestre importante com vários marcos para o setor de viagens. A Azul teve sua entrada na ponte aérea e começou a operar a Embraer E195-E2, maior avião comercial brasileiro. “A Azul Cargo está muito positiva, entregando solução logística com frete a jato e barato. Foi um ano bom, apesar do dólar e do PIB, então continuamos otimistas”, disse Malfitani.

Tecnologia — Ivanyra Correia, que atua como conselheira em três setores — o de finanças, no Bradesco, de energia na AES, e de tecnologia, na Serpro — destacou que inovação é a pauta. Estou no meu segundo mandato como conselheira de administração do Serpro, e o governo está fazendo um movimento digital com iniciativas que estão sendo elogiadas. Existe um empenho grande que governo fique mais enxuto e mais eficiente. Temos ido a vários países para buscar melhores práticas”, contou.

Comentários positivos — Nas considerações finais, Keyler Carvalho Rocha, professor e membro conselho de administração do IBEF-SP,  fez apanhado da visão dos executivos. “Geralmente, estamos preocupados com notícias negativas, mas temos um sistema não otimista, mas bem positivo”, disse. Para ele, o futuro próximo parece muito bom. “Importante notar que crise é mundial. Brasil sofre as consequências desses problemas mundiais”. Ainda assim, o professor acredita que dirigentes das empresas estão levemente otimistas, o que demonstra positividade. “Há esperança de um futuro próximo risonho”, complementou.

 

 

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(Reportagem: Bruna Chieco)

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