Mudança cultural é decisiva para a sobrevivência na era digital, ressaltam CEOs de empresas inovadoras

O painel ¨Mundo em transformação¨, realizado durante o 35o. Encontro Socioesportivo do IBEF-SP, no sábado (18), trouxe as visões de quatro CEOs de companhias inseridas na revolução digital para tratar dos desafios e oportunidades gerados pelas novas tecnologias e o papel do CFO nessas mudanças.

Reforçando a importância dos executivos financeiros como agentes de transformação em suas empresas, os convidados foram apresentados pelos membros da Diretoria do IBEF-SP, Augusto Martins (Banco Alfa), Roberto Catalão (Claro), Mario Mafra (Editora do Brasil) e Tamara Dzule (Nouryon).

Caminhos da inovação – Hector Gusmão, CEO da aceleradora Fábrica de Startups no Brasil, trouxe um dado que demonstra que a cultura da inovação veio para ficar: 100 milhões de startups nascem por ano em todo o mundo. E o Brasil não fica atrás: estima-se que, em 2019, o país irá gerar de 20 a 30 ¨unicórnios¨ em diferentes mercados – startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

¨O mundo nunca andou tão rápido. Em apenas três meses, o jogo Pokemon Go (criado pela startup Niantic em parceria com a Nintendo) conseguiu 50 milhões de usuários, público que organizações tradicionais levaram décadas para conquistar¨, ressaltou Hector. Ele destacou que as empresas nascentes não devem ser encaradas como concorrentes ou fornecedoras, mas parceiras para fomentar a cultura de inovação dentro das grandes companhias – atividade realizada hoje pela Fábrica de Startups.

O CEO destacou que o CFO pode ser o grande promotor dessa mudança de cultura, gerando os primeiros businesses cases em seu departamento para sensibilizar as demais áreas da companhia. Afinal, como demonstra a explosão dos investimentos em fintechs nos últimos anos, há diversos gaps na área financeira de uma organização que podem ser preenchidos quando se traz startups para ajudar a resolvê-los.

Por fim, Hector compartilhou três dicas para fomentar uma cultura de inovação com startups de forma bem-sucedida. Primeiro, o board precisa estar engajado e alinhado à essa estratégia. Segundo, não perca muito tempo planejando a inovação; comece um projeto, ainda que pequeno. Correções poderão ser feitas ao longo do processo de maneira rápida. E, por último, internalize os aprendizados. ¨Não se trata de simplesmente terceirizar a inovação para uma startup, mas trazer os aprendizados desse processo para dentro de casa, incentivando os funcionários a serem mais colaborativos, descentralizar a decisão e expor ideias sem o receio de tomar risco¨.

Tudo conectado – Anderson Ramos, CEO da empresa de segurança da informação Flipside, também reforçou a importância da mudança do mindset organizacional. ¨Quando falamos em transformação digital é impossível levar adiante um projeto sem antes se ter um processo de informação cultural que preceda qualquer tipo de iniciativa de cunho prático, seja para a adoção de uma tecnologia ou processo¨, observou.

Embora a tecnologia tenha mudado ao longo dos anos, a capacitação e entendimento dos usuários sobre ela permanece praticamente igual, alertou o CEO. A falta de aculturamento dos colaboradores sobre as ameaças e oportunidades do mundo digital ou ainda a falta de sensibilização dos membros do board e da diretoria sobre o tema pode abrir brechas para grandes prejuízos nas organizações. Desde 2013, mais de 9 bilhões de casos de perda ou roubo de dados foram registrados. Apenas em 2017, foram quase 3 bilhões de dados roubados, perdidos ou expostos, 88% a mais que em 2016.

O CEO lembrou que a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.708/2018) já está em vigor no Brasil. As multas previstas para as companhias que sofrerem essas ocorrências têm valores significativos e serão aplicadas a partir do próximo ano, se não houver atraso na implantação da norma. ¨Se você tiver dados de terceiros e eles forem vazados, você precisará comunicar os seus clientes. E, além das multas, isso abrirá flanco para que as pessoas questionem se a empresa foi vítima ou negligente com essas informações. São discussões que se aprofundarão com essa lei¨.

Anderson complementou que esse tipo de regulação motiva um grande ciclo de investimentos por parte das empresas, o que também traz oportunidades. ¨Enquanto muitas companhias investirão apenas para alcançar o nível básico de compliance para cumprir a lei e tirar o auditor do pé, outras olharão mais à frente e refletirão sobre como extrair o máximo valor desses investimentos em tecnologia para aprimorar processos e inovar, transformando isso em diferencial competitivo frente ao mercado¨.

Revolução do blockchain – Ainda sobre a importância da mudança cultural, Guga Stocco, CEO da GR1D, lembrou que é comum as pessoas terem grande resistência à introdução de inovações. Lembrou, como exemplo, que a adoção da energia elétrica gerou campanhas contrárias por parte alguns grupos sociais, afirmando que a tecnologia traria doenças. ¨Hoje vemos o movimento da expansão das redes sociais e as fake news¨, notou ao ressaltar que as novas tecnologias trazem tanto soluções como problemas.

A dica de Guga para iniciar uma mudança cultural nas organizações implica em admitir a ignorância sobre as novas tecnologias, que se tornará cada vez maior conforme a inovação se expande para diferentes setores. ¨O primeiro passo é reconhecer isso e buscar trazer esse conhecimento para dentro da empresa¨, observou.

O CEO ressaltou que o modelo de blockchain mudará a forma como as empresas  trabalham em um futuro próximo. Trata-se de uma tecnologia de registro distribuído, que visa a descentralização como medida de segurança, e que elimina a necessidade de agentes intermediários nas transações – o middle man. Por isso, empresas que atuam como intermediárias em um negócio precisam estar atentas a essa revolução tecnológica.

¨Imagine o que aconteceria se o Banco Central, por exemplo, emitisse uma moeda digital e você a recebesse em um aplicativo no seu celular. Isso eliminaria toda uma cadeia de intermediários que estão no meio desse processo¨, citou como exemplo. ¨O blockchain nada mais é do que emitir essa moeda ou emitir um contrato, que ficará guardado em um local seguro e transparente para todos, e que garante que a transação funcionará sem que se tenha que pagar o middle man para isso¨, ressaltou, destacando o potencial da tecnologia, que tem como uma de suas maiores aplicações as criptomoedas, como o bitcoin.

AI Economy – Gil Giardelli, CEO da 5ERA, consultoria que ajuda as empresas a se manterem relevantes em tempos de transformação, apresentou em sua palestra diversos exemplos de como a inteligência artificial e as novas tecnologias estão mudando modelos de negócios ao redor do mundo. ¨As próximas empresas unicórnio serão baseadas em biotecnologia e inteligência artificial¨.

Segundo Giardelli, o acrônimo que define o mundo como V.U.C.A. (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) já está ultrapassado. Agora as pessoas vivem os tempos pós-normais, como definiu, e isso já tem reflexos na área de educação. Próximo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, já existe um apiário com abelhas robôs conectadas em IoT (internet das coisas). O MIT, Instituto de Tecnologia de Massachussetts, procura e remunera estudantes ¨desobedientes¨- pessoas que dentro de uma ética clara conseguem mudar a forma de se ver o mundo. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel incentiva que meninas aprendam a ciência de dados, preparando-as para profissões como data médicas e data jornalistas.

Várias organizações também estão se reinventando. A Ford, por exemplo, que há 25 anos foi criticada por afirmar que o futuro da mobilidade nas cidades estaria nos patinetes elétricos, hoje obtém parte relevante de seu faturamento por meio de patentes dessa tecnologia. A Honda já criou carros que capturam o hidrogênio do ar e produzem água como resultado – e já colocou essa água à venda no mercado. A Nestlé vendeu sua operação de chocolates nos EUA e está se tornando uma empresa de tecnologia: pais podem pedir dicas de nutrição, receitas e fazer compras junto à companhia utilizando IoT e comando de voz. A Apple lançou seu cartão de crédito e se prepara para se tornar a maior empresa de serviços de entretenimento mundial. A Netflix não é mais uma empresa de streaming, mas uma companhia de dados que faz streaming.

¨Toda a economia tradicional criada até agora está em queda livre¨, alertou Giardelli. ¨O que criamos em Bretton Woods, conceitos de PIB, de Banco Mundial, não cabem mais nessa nova era¨, acrescentou o CEO, ressaltando que termos como a ¨economia da atenção¨ e a ¨gestão da prosperidade¨ ganham espaço no campo das ciências econômicas e da administração. Para o especialista, a inteligência artificial não veio para substituir ninguém – apenas quem não está se utilizando dela.

Para se manter atualizado sobre as inovações que estão surgindo, um CFO teria que estudar 160 horas por semana, observou o CEO. ¨Infelizmente, só temos 168 horas nesse período, então sobraria pouco tempo para fazer as necessidades básicas ¨, disse bem-humorado. E para aqueles que se sentirem inquietos com esse cenário de rápidas mudanças, há uma boa notícia, acrescenta Giardelli: ¨Todos estamos nos sentimos um pouco dinossauros. Se você não sentir isso, não estará vivendo plenamente esse novo mundo¨, acrescentou ao ressaltar que gerir o presente não é mais suficiente; a estratégia das empresas deve também estar voltada para a gestão do futuro.

 

 

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