“Não dependa apenas de job description: desenhe sua própria cadeira e gere mais valor à companhia”, diz o CFO do Mercado Livre Brasil

Tiago Azevedo foi o convidado do encontro de Mentoring do IBEF Jovem realizado no último dia 25 de setembro. O executivo revelou aos presentes o caminho percorrido para ascender na carreira e destacou a importância da capacidade de iniciativa: “Não gosto de job description. Cabe a nós falar qual trabalho pode gerar mais valor para a companhia”.
Com 15 anos de experiência na área de finanças, Azevedo também foi CFO na Hershey Brasil e atuou 13 anos na Unilever no Brasil, onde exerceu oito posições entre o Brasil, Chile e Estados Unidos. O executivo é bacharel em Administração com ênfase em Finanças pela University of Arkansas e possui MBA em Finanças e Estratégia pela New York University – Stern School of Business.

Crescendo entre países – Filho de angolanos que chegaram ao Brasil na década de 1970, Azevedo teve uma infância e uma adolescência movimentadas. Ele nasceu em Campinas (SP), mas como o pai trabalhava em uma empresa do setor automotivo, eles mudaram algumas vezes para os Estados Unidos e Azevedo acabou sendo alfabetizado em inglês. Ele também morou no Rio de Janeiro e no México.

Quando estava no segundo ano do ensino médio, ele voltou para Campinas. Viu que não estava preparado para o vestibular do Brasil e vislumbrou a possibilidade de conseguir uma bolsa nos Estados Unidos por meio do esporte: o tênis.

Do tênis ao sorvete – Para isso, precisaria treinar forte para estar entre os 15 melhores tenistas juvenis do País, uma exigência de uma academia do Texas para que pudesse treinar de graça por seis meses. “A saída seria pedir uma bolsa no colégio e negociar ausências duas vezes por semana para treinar e competir. Contei a ideia para os meus pais e depois fui falar com a diretoria da escola, que pensou e pediu contrapartida de usar o uniforme da escola nas competições”, relembra.

Quando atingiu a 14ª posição do ranking, ligou para a academia do Texas e embarcou. Em seguida, conseguiu uma bolsa na Arkansas University, para o curso de Administração. Como não tinha um bom mercado de trabalho na região, após o término do curso foi trabalhar com venda de seguros. “Vi que não daria certo e logo depois voltei ao Brasil”.

Em 2002, já em solo brasileiro, tentou trabalho de trainee, mas não conseguiu. Então, foi dar aula na escola Play Tennis. Um dia, ao substituir outro professor, conheceu um executivo da área de recrutamento, que o indicou para uma vaga na Kibon, líder no mercado de sorvetes. “Na época, eu nem sabia que a marca pertencia à Unilever e acabei ficando 13 anos na empresa”, brinca.

Trabalho além da função – Em junho de 2003, começou a trabalhar na multinacional anglo-holandesa como analista financeiro para a América Latina. Em função da incorporação das unidades da divisão de sorvetes, acabou se aproximando do vice-presidente. “Trabalhei aos finais de semana e fui além da minha função. Então, ele começou a me chamar para reuniões e me convidou para trabalhar no Chile. Aceitei na hora. Exposição com o alto nível da companhia é muito importante. Procure esses momentos e surpreenda”.

Em 2005, mudou-se para o Chile sem saber quanto iria ganhar, mas tornou-se coordenador. “Procure polos de talentos e desenvolva seu networking e tenha um mentor”, recomenda. Em 2007, foi transferido para New Jersey, nos Estados Unidos, maior operação da Unilever, e tornou-se gerente de planejamento financeiro para Américas. “Às vezes, você tem que fazer o que a empresa precisa que você faça”.

Em 2008, veio uma nova promoção e tornou-se gerente da categoria sorvetes, canal de conveniência nos Estados Unidos. “Foi uma das vagas que mais me diverti. Passava metade do tempo no escritório e a outra metade com os distribuidores em diferentes pontos do país. Mais que dupliquei o número de geladeiras e crescemos 15% ao ano. O trabalho do financeiro também é feito fora da cadeira e do Excel. Cabe a nós gerar mais valor para companhia”, aconselha ele.

Ele diz que àquela altura da carreira, conversou com um mentor e desenhou um plano de carreira. Aproveitou para fazer o seu MBA na NYU Stern, já que a companhia oferecia duas bolsas aos colaboradores. Conseguiu entrar na segunda tentativa. Naquela época, já sabia que não existia “work life balance”. “O importante é eu em sentir realizado independente de ter dormindo apenas três horas”, diz Azevedo, que nessa época teve aula com o guru do marketing e empreendedor serial Scott Galloway.

Novos caminhos – Em 2012, tornou-se assistant controller da Unilever Brasil, posição em que mais desenvolveu soft skills e habilidades técnicas. Ele também viveu os desafios da mudança com a família e readaptação ao país, além de lidar com demissões na posição. “Como estava afastado do Brasil, desconhecia muitas coisas. Mas quando você se abre e pede ajuda, as pessoas ajudam. Por isso, é importante construir um bom time”. Em 2015, tornou-se diretor de supply chain e finanças, posição em que foi responsável por 11 fábricas.

Naquela época, estavam surgindo algumas oportunidades para trabalhar fora do Brasil. Azevedo decidiu não aceitar por entender que fazer esse movimento, naquele momento, não agregaria para a sua carreira.
Em 2016, ele aceitou o convite para tornar-se CFO da Hershey Brasil e América do Sul. Com um time de 25 pessoas, ele deixou o lucro e caixa da empresa positivo no País, depois de 20 anos de perdas. “Tive a sensação de realização. Foi o time que mais admirei”.

Há alguns meses, após uma experiência marcante em um evento de tecnologia, decidiu mudar de área. “É importante descobrir como se manter relevante”.”. Então, tornou-se CFO do site de vendas Mercado Livre há cerca de dois meses.

Para Azevedo, se o profissional deseja chegar à liderança, é recomendável atuar em áreas diferentes para desenvolver as competências. “Mas é importante ter um plano de desenvolvimento de carreira, ainda que precise ser adaptado”, finaliza.

IBEF Jovem – O IBEF SP promove encontros de Mentoring, com o objetivo de incentivar o desenvolvimento da carreira, por meio do diálogo e do aconselhamento com líderes experientes. A iniciativa é patrocinada pela empresa Antecipa, focada no mercado de antecipação de recebíveis. www.antecipa.com

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