O desafio da presença da mulher em Conselhos de Administração

Executivos e especialistas compartilham seus pontos de vista sobre o tema em seminário promovido pelo IBEF Mulher 

Brasil patina frente a outros países no aumento da diversidade em conselhos

Ainda em 2015, um estudo da Corporate Women Directors International (CWDI) revelava não haver uma única mulher no conselho de administração das 100 maiores empresas da América Latina e que, no Brasil, apenas 6,4 % da diretoria dessas empresas eram de participação feminina.

Perfil profissional, ações afirmativas e soluções dividiram opiniões dos convidados

O tema, sensível ao IBEF Mulher, e a defasagem do Brasil frente a índices de países da América do Norte (19,2 %) e europeus (20 %), levaram o núcleo a promover um debate no último dia 1º, na sede do Instituto, com participação de Emílio Carazzai (IBGC), Raquel Preto (Preto Advogados), Richard Blanchet (CSN), Rosana de Pádua (CSN) e Sandra Guerra (Better Governance). A mediação ficou por conta de Maria José Cury, da PwC, empresa que juntamente com a Omint Saúde e Sustentabilidade patrocinaram o evento.

Embora todos os palestrantes tenham se mostrado favoráveis à maior diversidade e à equidade de gêneros, o consenso inicial não fez diminuir o vigor das opiniões divergentes quando abordados o perfil do profissional, as ações afirmativas e as soluções disponíveis que efetivamente pudessem levar à maior presença feminina nos Conselhos de Administração (CAs) das empresas.

Público prestigiou o evento

Perfil desejado – Para a sócia-diretora da consultoria de governança corporativa Better Governance, Sandra Guerra, os CAs já vêm passando por algumas transformações. “Ainda estamos na infância do entendimento da diversidade e equidade. Embora as competências estejam muito relacionadas ao fato de o conselheiro ser alguém de confiança – muitas vezes da família -, haver sempre a presença de um advogado e alguém que conheça a operação, algumas empresas têm buscado pessoas mais jovens e com capacitação em tecnologia, dado o risco cibernético.”

Mesmo tendo aumentado a preocupação com a sustentabilidade e a responsabilidade social, o perfil clássico, que contempla a linguagem financeira, é predominante na visão de Emílio Carazzai, presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Richard Blanchet, diretor de negócios da CSN e fã incondicional da competência colegiada, vê na mulher um perfil menos competitivo, mais amplo e menos egocêntrico e, embora releve a experiência e o background, avalia que só a empresa pode considerar o que seja o perfil necessário.

Da esq. p/ dir.: Richard Blanchet (CSN), Raquel Preto (Preto Advogados) e Rosana Passos de Pádua (IBEF Mulher e CSN)

Questão cultural – Para Blanchet e Raquel Preto (CEO da Preto Advogados), a participação maior das mulheres na diretoria executiva das empresas e nos CAs é uma questão cultural. Para ela, não se rompe padrão cultural sem política afirmativa. A empresa precisa ser estimulada a buscar uma política de equidade de gênero.

“Não há hipótese de romper essa barreira cultural e corrigir essa defasagem frente a outros países em um prazo razoável: a estimativa é de 80 anos. Precisamos de um modelo de política afirmativa, com adoção de cotas, porque a mulher não será lembrada”, disse Raquel Preto. Segundo a advogada, na Noruega, a correção da questão da licença à maternidade foi equilibrada com o aumento do tempo da licença à paternidade, estando prevista a equivalência salarial.

Maria José Cury, sócia da PwC e mediadora do debate, lembrou que a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) fez  audições às escuras e com isso aumentou a contratação de mulheres.

Da esq. p/ dir.: Maria José Cury (PwC), Emilio Carazzai (IBGC) e Sandra Guerra (Better Governance)

Diferentes iniciativas – Menos aderente às cotas, Richard Blanchet disse optar por uma saída menos simplista. “As empresas precisam ser pressionadas a mudar de atitude em relação à maternidade. Isso muda com a pressão da sociedade. Tornar algumas informações disponíveis ao público pode ajudar: quantas mulheres a empresa tem no quadro diretivo? Seja por interesse ou por crença, a empresa precisa passar por esse tipo de constrangimento para adotar medidas de equidade.”

Na tréplica, Raquel Preto defendeu a cota como uma alternativa para uma correção de defasagem social, com caráter transitório. “Políticas afirmativas precisam ser variadas: além de cotas, há necessidade de leis de licitações e contratações públicas que requeiram equidade de gênero.”

Evento foi sucesso de público

Para Sandra Guerra, a mulher precisa apropriar-se da condição de ser conselheira, podendo começar assumindo esse papel em entidades sem fins lucrativos. Segundo ela, também é importante conversar com pessoas em posição de conselho e usar meios como os oferecidos pelo IBGC, que é amigável às mulheres. “Antes do Emílio, ocupei a presidência do IBGC. Do universo de associados, as mulheres eram apenas 22 %.” O Instituto oferece um programa de certificação de conselheiros. Esse programa costuma ter apenas 7 % de adesão feminina; os mesmos 7 % que têm os CAs.

Rosana de Pádua, líder do IBEF Mulher e diretora de riscos e compliance da CSN, destacou que a preparação é fundamental, tanto quanto o conhecimento holístico da empresa. Como um ponto adicional a melhorar, ela sugere que a mulher faça o marketing social, interagindo mais com os colegas de trabalho, mesmo fora do ambiente corporativo. Rosana também lembrou de Madeleine Albright, primeira secretária de estado dos Estados Unidos, que disse haver um lugar especial no inferno reservado para as mulheres que não ajudam outras mulheres.

Integrantes do IBEF Mulher

Valores alinhados: Apoiadores

Na abertura do evento, Ana Michela Merchan, gestora de medicina preventiva da Omint, palestrou sobre a Sustentabilidade da Saúde Suplementar no Brasil. A Omint também promoveu o sorteio de prêmios para o público, ao final do evento.

 

 

 

 

 

Cícero Barreto (Omint)

A empresa, por meio de seu diretor comercial, Cícero Barreto, pontua a importância da maior participação das mulheres nos conselhos de administração como um avanço para a liderança feminina no mundo corporativo.  “Cada vez mais, as empresas compreendem que a participação delas no mais alto escalão da governança das companhias, impacta de forma positiva na produtividade, no engajamento e resultados financeiros”.

Segundo Barreto, a Omint valoriza a diversidade, incentiva o equilíbrio e a integração entre gêneros, principalmente na posição de liderança. “São valores alinhados com o propósito e a missão do IBEF Mulher, que representa o pensamento da mulher executiva, atua na ampliação do debate e de ações voltados para lideranças femininas, com foco no desenvolvimento de carreira, networking profissional e social”.

Maria José Cury (PwC)

Da mesma forma, a PwC, por meio da mediadora do evento, Maria José Cury, ressaltou a importância da diversidade nos CAs e nos cargos diretivos das companhias. “A PwC  está alinhada com a política de diversidade e equidade, em que pese a maior participação da mulher nas corporações.”

(Reportagem: Natalia Fontão / Fotos: Mario Palhares)

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