Open banking abre ao sistema financeiro do Brasil uma perspectiva de negócios por meio do uso de dados

A chegada do open banking no Brasil em novembro levará o sistema financeiro para um novo rumo de negócios mais abertos, com compartilhamento de dados por meio do uso da tecnologia. O tema foi discutido na live Jornada Open Banking Brasil e a Experiência Europeia, promovida pela Comissão Técnica de Mercado Financeiro e de Capitais do IBEF-SP, no dia 22 de outubro, com moderação de Rosangela Santos, conselheira independente e líder da CT. 

O open banking faz parte de uma estratégia do Banco Central do Brasil, dentro da agenda BC#, que visa trabalhar em instruções regulatórias que tragam serviços de qualidade, com amplo acesso ao mercado financeiro, em prol da maior competição no crédito, serviços e produtos de investimentos. Fábio Lacerda Carneiro, economista e professor, explica como funciona a intervenção regulatória do BC no sistema bancário no Brasil. “O open banking não é uma iniciativa isolada. Com ela, o BC tenta intervir no custo do crédito, criando condições de uso da tecnologia associada a um aumento do nível da competição do sistema financeiro nacional”, diz.

Por um lado, o open banking trabalha na digitalização, na regulação e cria condições para que fintechs de crédito atuem, tentando ampliar a quantidade dos ofertantes de produtos e serviços financeiros e de pagamentos no Brasil. Ao mesmo tempo, ele tenta reduzir assimetrias de informações, conforme explica Fábio Lacerda. “A finalidade é prover serviços financeiros de maior qualidade e menor custo, usando a tecnologia e dados, o ativo mais valioso no Brasil atualmente”, destaca.

Acesso à informação – Com a intervenção do BC, as instituições financeiras deverão ampliar o acesso à informação através dos dados, conforme explica Fábio Lacerda. “Open banking não significa que nossos dados ficarão abertos para quem quiser olhá-los. A proposta é empoderar o consumidor de produtos e serviços financeiros e de pagamentos, colocando o cidadão no centro do processo decisório. Open banking é um compartilhamento de dados e informações, mas acontecerá se houver o consentimento explícito do dono dos dados”, diz. “O open banking reconhece que o dono das informações é o cliente, e não a instituição financeiro e de pagamentos”, reforça.

Na prática, o open banking permitirá uma abertura no mercado financeiro para a entrada de novas empresas com novos serviços, como empréstimos e relatórios instantâneos para empresas, gerando e reconstruindo as informações, conforme explica Luigi Iervolino, diretor BIP Brasil, empresa de consultoria internacional que trabalha na construção de propostas de open banking. “Open banking só existe se o cliente dar o consentimento, e as instituições financeiras vão começar a criar produtos e soluções novas para incentivar o uso de dados”, diz.

Experiência internacional ­– Luigi explica como foi o processo de implantação do open banking na Europa, onde, em 2015, foi emitida uma normativa que obrigava todos os bancos a compartilharem informações, principalmente de conta corrente e transacionais de pagamento. “O open banking está revolucionando o sistema financeiro mundial. O Brasil está na frente, pois na última fase, em outubro de 2021, serão compartilhadas as informações de produtos de open finance, como previdência, seguros, etc.”, destaca.

Em 2018, o Reino Unido se tornou benchmark em open banking, enquanto a Itália começou seu processo de implantação em 2019. “Em ambos os países, o processo não está completado. A jornada é longa”, diz Luigi. Segundo ele, os benefícios do open banking estão além do compartilhamento de informações. “O open banking traz padronização de APIs, simplificando a conexão  instituições entre si, com fintechs ou empresas. Além disso, o open banking continua uma tendência de digitalização, e os clientes vão se acostumar a usar cada vez mais os canais digitais. A consequência está nos custos operacionais, que serão reduzidos. Quem conseguir aproveitar isso, terá vantagem competitiva”, ressalta.

Ele demonstra ainda que na experiência da Europa, o open banking começou a ampliar a concorrência. “Começaram a entrar novos players no mercado, especialmente nas áreas de finanças pessoais, gestão da poupança e empréstimos instantâneos, bank as a service, etc.”, diz Luigi. “Na Itália, após a normativa, as instituições ou viraram agregadoras ou criaram plataformas abertas, ou seja, um marketplace onde, em vez de se vender viagem, casas, ou outros produtos, são vendidas APIs (interfaces de programação de aplicações). É um lugar onde fintechs, empresas e bancos podem comprar APIs em modelo as a service”.

Desafios e impactos – Luigi destaca, contudo, queos principais desafios do open banking estão na estratégia de negócios “É preciso ter uma visão estratégica, identificar parcerias e desenhar uma arquitetura escalável segura e que permita interação com outras instituições, revendo ferramentas e modelos de analytics para armazenar e usar informações”.

Fábio reitera que o impacto financeiro do open banking ocorrerá mais no longo prazo, mas o impacto mais próximo é, de fato, o crescimento de instituições. “No curto prazo, vemos a ampliação do mercado ofertante e, no longo prazo, isso traz os benefícios aos consumidores”. Ele ressalta que as empresas precisarão se adaptar a esse momento de acordo com o perfil do consumidor, reforçando a eficiência que essas soluções podem trazer ao mercado, tanto do ponto de vista da empresa quanto operacional. “Bancos podem continuar fazendo parcerias com empresas. Tudo isso incorpora eficiência operacional nos processos”. Luigi reitera que, devido aos processos de integração entre instituições, o impacto será grande no back office das empresas.

Processo no Brasil – O open banking é mandatório para as maiores instituições financeiras e de pagamento do Brasil, ou seja, os 12 maiores bancos do Brasil são obrigados a participar, mas é também fortemente incentivada a participação dos demais bancos autorizados a funcionar. “O BC cria esse modelo como um clube fechado das instituições autorizada a funcionar para que haja uma proteção relacionada à segurança cibernética e risco operacional”, explica Fábio Lacerda.

Em relação ao arcabouço regulatório e possibilidades em relação aos outros países, Fábio destaca que o Brasil está bem avançado. “Estamos no topo do que a experiência internacional tem feito nesse sentido”. Ele diz ainda que há diversas vantagens no andamento do open banking do Brasil. “No geral, estamos muito bem quando comparados com experiências internacionais de intervenção regulatória, mas ainda com limitação no aspecto do rol de participantes”, reforça.

Fábio reitera que a primeira fase do open banking será gradual, sendo que a partir do ano que vem há um cronograma de implementação que começa com o compartilhamento, a partir do consentimento, de dados cadastrais e transacionais. “Na fase 3, já teremos serviços conectados ao processo de pagamentos instantâneos, e depois o conceito de open banking se expande para o conceito de open finance, com outros produtos e serviços que não necessariamente bancários”, complementa.

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