Tesouraria: bitcoin como reserva de valor e ativos tokenizados podem ser futuro do mercado financeiro

Será o bitcoin o “ouro” do futuro? Os investimentos bilionários anunciados por MicroStrategy e Tesla, em fevereiro, para engordar a participação da criptomoeda em suas carteiras chamam atenção para a aplicação do bitcoin como reserva de valor pelas empresas.

Uma visão geral desse mercado e a “tokenização” da economia foram temas da reunião da Comissão Técnica de Tesouraria e Riscos do IBEF SP, realizada em 11 de março.

Crescimento exponencial – Tesla e MicroStrategy não estão sós. Mais de 45 companhias abertas dos EUA já possuem bitcoin no seu portfólio de Tesouraria, destacou Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin, palestrante convidado da reunião.

“Como empresa do mundo cripto, hoje temos 30% da nossa Tesouraria em bitcoin”, afirmou Reinaldo. O Mercado Bitcoin é a maior plataforma de criptomoedas e investimentos alternativos do Brasil, com quase 3 milhões de clientes.

Segundo Rabelo, o bitcoin – cotado no patamar de R$ 315 mil a unidade – cresce em volumes exponenciais. Apenas nos dois primeiros meses de 2021 já foram R$ 10 bilhões transacionados na plataforma – volume que superou 2020 inteiro. O que indica que o bitcoin vive hoje a mega hype que se pensava ter acontecido em 2017.

“Ouro digital” – Grande parte do volume desse mercado é movimentado por arbitradores – em especial instituições financeiras – que compram e vendem a criptomoeda em várias exchanges no Brasil e no mundo para ganhar spread, observou Reinaldo.

Mas cresce a porção do varejo que busca se posicionar em bitcoin como reserva de valor, ainda sem fazer trade. “Algumas empresas têm comprado, mas não divulgam, talvez por ainda terem dúvidas sobre questões regulatórias. E temos casos também de companhias que começam a estudar o bitcoin para operações de câmbio”.

O CEO da Mercado Bitcoin observou que a resiliência demonstrada pela criptomoeda ao longo dos anos e seu comportamento dentro da pandemia, comparado ao mercado do próprio ouro, têm validado esse conceito do bitcoin como o “ouro digital” – ou seja, sua aplicação como reserva de valor.

Mudança de tom – Em relatório sobre o status e potencial futuro do bitcoin, divulgado no início deste mês, o Citigroup destaca a popularização da criptomoeda e sugere que ela pode se tornar a moeda escolhida para o futuro do comércio internacional.

Dentre os aspectos destacados na análise estão as vantagens do bitcoin para pagamentos internacionais, tecnologia baseada em rede descentralizada, falta de exposição a câmbio, canais de pagamento seguro, menor custo com a desintermediação financeira e rastreabilidade.

O relatório marca a mudança de tom já observada nos grandes investidores institucionais em relação ao bitcoin. Após diversas críticas sobre aspectos como a falta de lastro, possibilidade de bolha, e tentativas de validar as teses de riscos sistêmicos, vários players do mercado financeiro decidiram entrar nesse mercado: seja por meio da compra de ativos, investimento em plataformas ou prestação de serviços para exchanges.

“Tokenização da economia” – A tecnologia blockchain, protocolo de origem do bitcoin, também deu luz ao movimento “tokenizing everything”. A tokenização é o ato de converter bens ou direitos reais (e digitais) em tokens codificados com contrato próprio na rede blockchain, que representarão frações desses bens, direitos ou ativos.

Isso significa que ativos considerados “ilíquidos” ou com pouco espaço no mercado tradicional – como direitos de recebíveis, precatórios, alienação fiduciária – podem ser (e já são) tokenizados e negociados em exchanges de ativos alternativos.

Um exemplo citado pelo CEO do Mercado Bitcoin – que mostra o pioneirismo brasileiro – foi a tokenização dos direitos do mecanismo de solidariedade da FIFA. “Os clubes de futebol têm esse ativo de jogadores que já negociaram. Eles mantêm o direito de ganho de receita em caso de negociações futuras, mesmo que não estejam envolvidos. Tokenizamos esse direito, submetemos à CVM, e recebemos o parecer de que essa tokenização é correta e regular”.

Avanço regulatório – No Brasil, tanto o Banco Central como a Comissão de Valores Mobiliários têm acompanhado de perto o mercado de criptomoedas e ativos tokenizados, por meio de regulamentações, orientações e estudos. Já se tem notícia, por exemplo, de que o BC analisa o impacto e estuda o lançamento de uma moeda digital brasileira em 2022.

A Receita Federal já emitiu manuais sobre o tema e, desde 2018, obrigou as exchanges no mercado nacional a reportarem mensalmente toda e qualquer transação realizada – incluindo as bases de CPFs, CNPJs e volumes transacionados. Os ganhos de capital com as criptomoedas, a depender do valor negociado, são tributados para PF e PJ.

“Como Exchange, somos bastante fiscalizados nesse sentido. E, mais recentemente, na divulgação da declaração de imposto de renda deste ano, a RFB já incluiu códigos específicos para cada tipo de criptomoeda”, completou Reinaldo.

Passagem de bastão na Comissão de Tesouraria

Camila Abel, líder da CT de Tesouraria e Riscos, destacou que a reunião faz parte da agenda de inovação pensada para o grupo de executivos ao longo deste ano. Ela se despede da coordenação da Comissão para tornar-se VP de relações institucionais e parcerias do IBEF SP. Igor Bueno assume a liderança da Comissão, que continuará se reunindo mensalmente.

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