Fusões e aquisições: como aumentar ganhos sem destruir valor

Especialista explica momento do mercado e dá dicas para otimizar ganhos no processo de compra e venda de empresas.

Executivos tiram dúvidas com Nestor Casado, CEO da Capital Invest.
Fotos: Mario Palhares/IBEF SP

A Comissão de Mercado de Capitais e RI promoveu café da manhã, na última sexta-feira (13), sobre o cenário de fusões e aquisições no Brasil. A apresentação foi conduzida por Nestor Casado, CEO da Capital Invest – M&A Advisors, consultoria especializada cujos sócios e associados acumulam experiência de R$ 20 bilhões em mais de 50 transações assessoradas nos últimos anos.

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O mercado de M&A está mais ativo do que nunca, afirmou Casado. Puxado fortemente pela entrada de capital estrangeiro, bateu recordes consecutivos nos últimos três anos. Apenas no ano passado, foram realizadas 818 transações, somando o total cross border e doméstico. Em 2015, esse movimento continuou (com maior fatia do capital estrangeiro) e a expectativa é de aumento no número de empresas à venda.

Os impactos da crise econômica e política contribuirão para essa tendência.“O número de empresas à venda é maior, deve haver um aumento da participação dos investidores estrangeiros que já têm presença no país, e dos fundos de private equity com funding finalizado, no total das transações”, observou Casado.

Não é difícil entender o porquê. O momento para adquirir empresas no Brasil é visto como melhor nos últimos anos. Algumas das razões: a) o deságio de 50% pelo efeito de desvalorização do real; b) o deságio, em vários segmentos, dos múltiplos/ aumento das taxas de retornos exigidas; e, ainda, c) deságio adicional pela diminuição do EBITDA/fluxo de caixa livre das empresas em vários setores.

Perfil das transações

Casado destacou o perfil das transações realizadas no último ano. A maioria correspondeu a aquisições (49%) e a compras minoritárias (38%). Os segmentos mais ativos em número de transações foram tecnologia da informação (TI), empresas de internet e companhias energéticas. Estados Unidos foi o principal investidor estrangeiro, respondendo por 35% das transações realizadas em 2014. Em seguida, vieram Reino Unido (9,8%), França (8%) e Alemanha (7%).

Essa movimentação deve continuar por algumas razões, observou Casado. A primeira é que ainda existem vários segmentos em processo de consolidação no Brasil, como energia, saúde, agribusiness e TI.

As oportunidades espalham-se em vários setores. Em períodos de volatilidade, os investimentos no setor de infraestrutura são vistos como atraentes e estáveis, pois se derivam de necessidades estruturais. O setor hospitalar (agora com limites ampliados para a participação do capital estrangeiro, autorizada pela Lei n.º 13.097/2015), o segmento de energias renováveis e o sucroalcooleiro (para os o quais o Brasil apresenta vocação natural e posicionamento global privilegiado) também estão no radar de oportunidades, afirmou Nestor Casado.

Dicas para quem vai comprar

O CEO da Capital Invest deu alguns conselhos para que investidores (nacionais ou estrangeiros) possam aumentar seus ganhos em uma aquisição. Veja alguns:

1) Focar no core business. “Se você vende sapatos, você não pode comprar uma academia de ginástica”, aconselhou o especialista. Estatísticas demonstram que diversificar em outros segmentos via aquisições destrói valor para a companhia. Se a organização quer desenvolver novas linha de negócios, é aconselhável fazer isso de forma orgânica – e não via aquisições, completou.

2) Diversificação geográfica. Quando a aquisição possibilita a entrada em novas regiões ou fortalecimento da presença nacional, dentro do “core business”, o negócio estatisticamente cria valor para o investidor, observou Casado.

3) Profissionalização. Gerenciar todo o processo da forma mais profissional possível, contratando executivos internos ou banco ou assessoria especializada, com a devida experiência local em fusões e aquisições.

Do ponto de vista de Casado, “existem três medidas que podem evitar cair dentro  de 50% das transações que destroem valor para o investidor”:

1-       Seleção estruturada de targets  e alinhada com o racional de aquisição;

2-      Avaliação, análise de riscos e estimativa de sinergias realistas; e

3-      Incentivos à implementação de sinergias.

 

Dicas para quem vai vender

Na outra ponta, como o empreendedor brasileiro pode aumentar seus ganhos na venda de uma empresa ou projeto? Confira algumas dicas do especialista:

1) Profissionalização. Delegar a coordenação do processo de venda a profissionais experientes e com boa reputação no mercado (ex: assessoria especializada ou banco).  Empresas de capital fechado costumam ser vendidas com deságio médio de 20 a 30% em relação a empresas cotadas, apontou um estudo da universidade INSEAD. O principal fator é a ausência de assessoramento financeiro adequado e a consequente  ausência de um processo competitivo que maximize o valor de venda.

“Advogar em causa própria” não é a melhor opção. Esse conselho vale até mesmo para quem já tem ampla experiência com M&A. “Se um dia eu tivesse que vender uma empresa minha, eu não estaria à frente desse processo porque existiria o envolvimento emocional”, exemplificou o CEO.

2) Laissez faire. A expressão cunhada pelo marquês de Gournay é sempre atual. Deixe o mercado agir. O preço do projeto/empresa deve ser estipulado pelo mercado em um processo de competitividade. Caso contrário, existem dois riscos: ou o empreendedor perde o negócio porque quer um valor irreal; ou faz uma transação abaixo do valor de mercado da empresa porque fechou com o primeiro investidor interessado.

3) Terceirizar com exclusividade. Terceirizar a coordenação do processo de venda com exclusividade é importante. Segundo Casado, isso ajuda a preservar a reputação do empreendedor e do mandatado, evitando que o mesmo projeto seja apresentado várias vezes à mesma empresa ou investidores, e o mais importante: coordenar adequadamente todos os contatos com dezenas de investidores envolvidos, e consequentemente obter o melhor valor de venda.

4) Preparação. Preparar a empresa para ser vendida desde já, e aproveitar para vender quando o mercado está aquecido.

“Estar com problemas não deve ser o principal motivo para vender uma companhia. Primeiro você resolve os problemas. Depois vende a empresa”, completou o especialista.

André Cazotto, líder da Comissão de Mercado de Capitais e RI, ao lado de Nestor Casado, CEO da Capital Invest
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