Vieses inconscientes ainda são barreiras para a ascensão de executivas

junho 18, 2018 8:52 pm Publicado por

Renato Villalba, gerente executivo da Michael Page, foi o convidado de 8 de junho para o Encontro com Headhunter, realizado pelo IBEF Mulher. Com mais de 5 mil entrevistas realizadas, Villalba atua há 8 anos com recrutamento de executivos financeiros, conduzindo processos seletivos para empresas nacionais e multinacionais.

Durante o bate-papo com as ibefianas, Villalba apresentou estudo realizado pela empresa de recrutamento de executivos revelando que, apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, elas ainda têm baixa representatividade em cargos no quadro executivo (13,6%) e posições de Conselho no mercado (11%). O rendimento médio das mulheres ainda corresponde a 70% do recebido por homens.

Para Villalba, o caminho para o aumento da diversidade está bem traçado para a área de finanças. ¨No universo de finanças, é muito raro o headhunter receber uma demanda que explicitamente exclua um dos gêneros do processo seletivo. Às vezes, percebemos a existência de um preconceito, mas é velado, manifestado por um intermediário e não pelas palavras do gestor em si¨, observou Villalba.

Contudo, mesmo com o aumento dos programas de diversidade nas corporações, algumas barreiras ainda se apresentam no dia a dia das profissionais. Muitas decorrem dos vieses inconscientes (conjunto de estereótipos que mantemos sobre diferentes grupos de pessoas) ainda existentes nas culturas de empresas e até mesmo na postura de alguns profissionais de recursos humanos.

¨Percebemos que muitas empresas têm boas intenções com a realização de iniciativas, mas essas acabam não se concretizando como programas. Quando se vai olhar a fundo, são mais fachada do que ações efetivas¨, notou Villalba. ¨Ainda existe uma trava para a evolução da carreira feminina a partir do nível gerencial¨.

As participantes relataram situações de constrangimento vivenciadas em entrevistas de emprego, como perguntas pessoais ligadas à relação e a profissão do marido, gravidez, maternidade e rotina doméstica – que talvez não seriam levantadas se o candidato na outra ponta fosse do sexo masculino.

Mas outro aspecto, também comum, é quando a mulher constrói o seu próprio muro. ¨É bem menos comum as mulheres se colocarem assertivamente, com firmeza, como candidatas a uma posição de liderança¨, observou Darlene Alvarez, diretora do Bank of America Merryl Linch.

¨Se uma mulher percebe que preenche 90% dos requisitos para uma vaga, em geral ela não se candidata porque não tem os 10% restantes. Já os homens tomam essa iniciativa com mais frequência, às vezes preenchendo apenas 60% dos requisitos¨, observou Daniela Siqueira, consultora da Michael Page.

Contudo, ainda que lentamente, esse cenário tende a mudar. Políticas como licença-paternidade estendida (em alguns casos de dois a três meses), programas de coaching e inclusão para formação de lideranças femininas e treinamentos voltados à redução de vieses na cultura corporativa já são realidade em empresas no Brasil.

Uma reflexão feita pelas profissionais é o quanto cabe também às próprias mulheres tomar a iniciativa e agir para desconstruir os vieses inconscientes nas situações cotidianas, junto às pessoas de seu convívio pessoal e profissional, como observou Simone Borsato. ¨Não conseguimos mudar as pessoas, mas podemos nos modificar: nossa postura perante a vida, nas posições de liderança. É um trabalho interno que precisamos fazer, primeiro conhecendo a nós mesmas e nos conscientizando do nosso papel na sociedade e dos nossos direitos. É isso que vai ajudar a impulsionar essa mudança¨, complementou Irene Azevedoh, diretora da LHH.

Ao final da discussão, Renato Villalba ressaltou que a mulher tem caminhado a passos largos em direção a ganhar maior espaço nas empresas. ¨Contudo, a bola para virar esse jogo e mudar percepções ainda está principalmente com as mulheres, mesmo isso sendo algo injusto e absurdo. Se as mulheres ajudarem as empresas que têm boa vontade e iniciativas nessa direção, participando da discussão sobre gênero, elas vão contribuir para fazer esse caminho acontecer¨.

A líder do IBEF Mulher, Luciana Medeiros, recomendou às participantes a leitura de um estudo sobre ¨Vieses insconscientes¨, publicado recentemente pela PwC. Acesse aqui!