A guerra das maquininhas e o dilema do cobertor curto

Por Flávio Calife e Vitor França, economistas da Boa Vista

Uma antiga demanda do setor varejista é a redução do prazo de recebimento das vendas realizadas no cartão de crédito. Afinal, o prazo atual, de 30 dias, em média, gera para muitos estabelecimentos comerciais despesas com operações de antecipação de recebíveis, comprometendo a rentabilidade dos negócios.

Uma rápida leitura dos últimos movimentos de duas das principais maquininhas do mercado indica que, graças ao acirramento da concorrência no setor – fenômeno batizado de “guerra das maquininhas” –, a antiga demanda do varejo foi, finalmente, atendida.

A GetNet, do Santander, anunciou, recentemente, a redução para 2% da taxa cobrada de pessoas físicas e microempreendedores individuais sobre as vendas no débito e no crédito em uma parcela, com o pagamento dos valores aos comerciantes em até dois dias.

A Rede, do Itaú, por sua vez, zerou as taxas de antecipação das vendas realizadas nas compras com cartão de crédito em uma parcela para os lojistas que tenham conta no Itaú.

A mão invisível do mercado agiu, os preços caíram e os comerciantes, a partir de agora, serão felizes para sempre – ao menos no que diz respeito aos custos relacionados às vendas no cartão de crédito. Será?

O mercado de crédito e serviços financeiros no Brasil, infelizmente, ainda está bem longe de ser um conto de fadas.

Embora a queda do prazo de recebimento das vendas no cartão represente redução de custos para lojistas a curto prazo, ela pode ter impactos negativos na dinâmica da concorrência do mercado de maquininhas a média prazo. Isso porque uma das características do mercado brasileiro de cartões é o alto grau de verticalização, com os grandes bancos donos das principais credenciadoras.

Até meados de 2010, quando teve fim a exclusividade entre as principais credenciadoras e bandeiras do mercado, Cielo e Rede respondiam por mais de 90% dos volumes transacionados com cartões no país. Atualmente, a participação dessas empresas – as duas maiores do setor – não chega a 70%.
A Cielo, cujos principais sócios são Bradesco e Banco do Brasil, e a Rede, do Itaú, perderam espaço para a GetNet, do Santander, e para novas empresas como PagSeguro e Stone, fintechs não ligadas aos grandes bancos.

Além da perda de espaço no mercado, o aumento da concorrência resultou em queda das taxas pagas pelos lojistas, redução do aluguel das maquininhas e aumentos das despesas comerciais e de marketing dessas credenciadoras.

Como consequência, a Cielo registrou no ano passado um lucro líquido ajustado 19% inferior ao de 2017, o primeiro recuo nominal da história da empresa. Na Rede, as receitas totais com credenciamento e adquirência caíram 13% no mesmo período.

A Rede, contudo, parece responder ao avanço dos novos competidores com um movimento que pode comprometer ainda mais as suas receitas. Faz sentido?

É claro que sim. Afinal, para os grandes bancos, donos das maiores credenciadoras e também principais emissores de cartão de crédito do país, ao menos parte da perda das receitas da atividade de credenciamento pode ser compensada por novas receitas com crédito e outros serviços financeiros.

Já as credenciadoras menores, não ligadas a bancos, podem se ver diante de uma encruzilhada: ou mantêm as taxas de antecipação – e correm o risco de perder espaço no mercado – ou sacrificam suas receitas nessa modalidade.

Para se ter uma ideia da relevância dessas receitas, de acordo com levantamento da Boanerges & Cia., consultoria especializada em varejo financeiro, as receitas com antecipação de recebíveis representaram, em 2018, 33% das receitas totais da PagSeguro, e 51% no caso da Stone – na Cielo, a participação é de 23%, o que sugere menor dependência das grandes credenciadoras desta linha de receitas.

O impacto do anúncio da Rede nos preços das ações de seus concorrentes foi proporcional à relevância das receitas com antecipação: as ações da Cielo fecharam em queda de 7,3% na B3 no dia do anúncio. Na Nasdaq, os papéis da Stone desabaram mais de 20%. Os papéis da PagSeguro, que são listados na Nyse, por sua vez, recuaram 10%.

Optando por qualquer um dos caminhos, as novas credenciadoras veriam sua competitividade reduzida, o que, a médio prazo, poderia resultar em menor concorrência e, com isso, taxas de desconto mais elevadas para os lojistas.

Xeque mate?

Ainda não. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu processo para investigar Itaú e Rede depois de a credenciadora anunciar que vai zerar a taxa de antecipação para lojistas que tiverem conta no banco. A suspeita é que haja conduta anticompetitiva, já que o Itaú, dono da Rede, ofereceria condições melhores para clientes da sua própria credenciadora. Será investigado também se o banco está praticando preço predatório e subsídio cruzado.

Independentemente do desfecho da investigação, o imbróglio deixa evidente os problemas concorrenciais derivados da verticalização dos serviços financeiros, que impõe à mão invisível do mercado o velho dilema do cobertor curto: se ela puxa o cobertor para cobrir a cabeça, inevitavelmente acaba descobrindo os pés.

As opiniões e conceitos emitidos no texto [acima] não refletem, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) a respeito do tema, sendo seu conteúdo de responsabilidade do autor.

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