Devo, não nego, pago quando puder

Por Flávio Calife e Vitor França, economistas da Boa Vista SCPC

Diz o senso comum que uma característica peculiar do povo brasileiro é sua capacidade de rir das próprias adversidades. A famosa expressão do título deste artigo, por exemplo, dá certa leveza a um problema grave, que afeta milhões de famílias brasileiras: a inadimplência.

Além de gerar uma série de dificuldades para o inadimplente, como não conseguir um financiamento ou abrir uma conta corrente – sem falar no crescimento exponencial da dívida com os juros e multas –, a inadimplência compromete a oferta de crédito e, consequentemente, toda a economia do país.

Ao contrário do que sugere a expressão “Devo, não nego, pago quando puder”, a inadimplência está longe de ser um problema apenas para quem empresta – que, de maneira geral, tem condições de repassar os custos dos atrasos para as taxas de juros cobradas nos empréstimos.

De acordo com o Banco Central, a inadimplência é a principal responsável pelo elevado custo do crédito no país, respondendo por mais da metade do spread bancário.

Dívidas atrasadas, portanto, afetam não somente os endividados com contas em atraso, mas todos que precisam recorrer a financiamentos.

Segundo dados do Banco Central e do Banco Mundial, entre um conjunto de países selecionados, o Brasil é o que apresentava o maior spread bancário em 2017 (21,5 pontos percentuais), à frente de Paraguai (14,3 p.p.), Uruguai (10,6 p.p.), Argentina (9,7 p.p.), Colômbia (7,7 p.p.), Bolívia (5,6 p.p.) e Chile (1,8 p.p.), para ficar apenas em alguns vizinhos da América do Sul.

Equivoca-se, porém, quem acredita que nossos altos índices de inadimplência seriam reflexo do nosso tal jeitinho brasileiro, traduzido neste caso em uma espécie de propensão a se esquivar dos credores e adiar o pagamento das dívidas.

A verdade é que, por trás da elevada taxa de inadimplência, há tanto fatores conjunturais – associados à situação do mercado de trabalho – quanto estruturais –, estes associados tanto a falhas do mercado de crédito quanto ao baixo nível de escolaridade da população.

De acordo com a última pesquisa da Boa Vista SCPC realizada para identificar o perfil dos consumidores inadimplentes no Brasil (1º semestre de 2018), o desemprego era a principal causa da inadimplência, correspondendo a 45% dos casos, seguido por descontrole financeiro (18%), empréstimo do nome (18%), diminuição da renda (8%), despesas extras em saúde ou educação (7%) e atraso no recebimento de salário ou aposentadoria (4%).

Grande parte do problema, portanto, está associado à conjuntura econômica. Não é à toa que, segundo dados do Banco Central, a inadimplência das operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas (PF), depois de atingir 6,3% no auge da crise recente, passou a cair com a recuperação da economia e do mercado de trabalho, chegando a 5% em julho deste ano.

A inadimplência PF total – quando também são considerados os recursos direcionados –, por sua vez, passou de 4,3% para 3,5% no mesmo período. O recorde de inadimplência das pessoas físicas foi registrado em 2012, quando a taxa com recursos livres atingiu 7,2% e a taxa total, 5,5%.

Com a crise, bancos tornaram-se mais conservadores na concessão de empréstimos, enquanto os consumidores cortaram gastos, evitaram se endividar e priorizaram a compras de bens de primeira necessidade, o que também resultou na redução do nível de endividamento das famílias de cerca de 46% da renda no final de 2015 para 41,6% em junho de 2018. Excluindo-se o crédito habitacional, o endividamento passou de 27% para 23,4% no período. Daí percebe-se que tomadores e concedentes de crédito se reorganizaram para um novo equilíbrio.

A redução da inadimplência também foi notada nos balanços dos cinco maiores bancos do país, que, nos últimos dois anos, passou de 3,9% para 2,8% no Itaú, 5,4% para 3,9% no Bradesco, de 3,5% para 2,8% no Santander, de 3,5% para 3,3% no Banco do Brasil e de 3,5% para 2,5% na Caixa, acompanhando a redução do desemprego e o aumento da renda.

A relação entre a inadimplência e a situação do mercado de trabalho indica que medidas como seguro-desemprego e linhas de crédito para renegociação de dívidas, com juros menores e prazos maiores, podem ter um papel importante para evitar o agravamento da crise em momentos de enfraquecimento da atividade econômica.

Contudo, elas não eliminam o problema. Conforme aponta a pesquisa da Boa Vista SCPC, grande parte da inadimplência está associada a descontrole financeiro (18% dos entrevistados), mau uso do sistema financeiro (18% emprestaram o nome com o objetivo de conseguir financiamento para outra pessoa) ou surpresa com despesas extras em saúde ou educação (7%).

Nestes casos, a redução da inadimplência passa pela promoção da educação financeira e campanhas publicitárias apresentando o uso correto do crédito.

Por fim, há problemas estruturais associados às altas taxas de juros, que afastam os bons pagadores do mercado de crédito e tendem a aumentar os índices de inadimplência no país. Neste caso, a solução requer estímulo à competição bancária e maior transparência das informações.

A regulamentação e o incentivo ao desenvolvimento das fintechs, a portabilidade do salário e do crédito e a implementação do cadastro positivo são medidas que devem colaborar nesta frente.

Que a capacidade de rir das próprias adversidades continue ajudando os brasileiros a lidar com problemas inevitáveis, mas que não se limite a uma simples forma de resignação nem se transforme em um obstáculo para o enfrentamento de entraves que podem ser superados através de aperfeiçoamentos regulatórios, como é o caso dos altos índices da inadimplência e das falhas do mercado de crédito.

As opiniões e conceitos emitidos no texto [acima] não refletem, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) a respeito do tema, sendo seu conteúdo de responsabilidade do autor.

 

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