Ana Paula Assis, da IBM, compartilha desafios e aprendizados de quem está à frente da área de tecnologia

Presidente da IBM América Latina desde julho de 2017, Ana Paula Assis foi a convidada do Encontro com CEO do IBEF Mulher, realizado no dia 27 de setembro, na Saint Paul Escola de Negócio. A executiva compartilhou com os participantes do evento a importância que tecnologia e dados têm hoje no dia a dia das pessoas e das empresas, e como ela, que está à frente de uma grande operação de negócios em TI, lida com a responsabilidade e desafios que essa área traz.  “Ana Paula trabalha em uma área mais árida, onde vemos poucas mulheres”, destacou Maria José De Mula Cury, líder do IBEF Mulher e sócia da PwC Brasil, na abertura do evento.

A expertise de Ana Paula na indústria de TI é vasta, somando 20 anos de experiência na área em uma carreira profissional dedicada ao desenvolvimento de negócios estratégicos, gestão de mudanças em organizações grandes e multiculturais, e à liderança inovadora. E ela demonstrou essa experiência durante o encontro com uma apresentação sobre o impacto que o aumento constante de dados gera na sociedade. “Vivemos num mundo em que tecnologia passou a ser parte do nosso dia a dia e das nossas profissões, trabalhamos para que ela promova cada vez mais o progresso da sociedade e das pessoas”, disse.

Há 2 anos e meio como presidente de uma grande empresa de TI, ela disse que não achou que estaria nessa posição tão cedo, mas que foi um presente e uma oportunidade incrível poder assumi-la. “É também uma responsabilidade muito grande. Além de cumprir o que tem que ser feito diariamente, como entregar resultado, me foi dada uma excelente chance de influenciar pessoas”, destacou. E Ana Paula faz isso através de projetos de grande impacto. Reconhecida no mercado como líder de opinião em inteligência artificial e responsabilidade de dados, a executiva está comprometida com o desenvolvimento de ambientes de trabalho cada vez mais inclusivos e com o contínuo avanço da educação para impulsionar as capacidades das profissões do futuro. Este ano, recebeu o prêmio “Executivo de Valor” em TI & Telecom, pelo Valor Econômico, foi reconhecida pela Forbes como uma das 20 Mulheres Mais Poderosas do Brasil e também está entre os Melhores CEOs do Brasil.

Carreira profissional — Ana Paula tem formação técnica em Ciência da Computação, profissão a qual escolheu inspirada pelo pai, e também por ser uma área com poucas mulheres. “Surgiu uma oportunidade de entrar na IBM como estagiária e fiz minha trajetória na companhia. Passei por várias áreas, morei em Nova York, na China, e agora tenho a América Latina sob minha responsabilidade. E faço o que gosto”, contou.

Logo quando entrou na IBM, Ana Paula já identificou a oportunidade de ir além dos limites profissionais. “As tecnologias que temos hoje podem mudar histórias. Mas será que estamos usando isso com propósito adequado?”. Foi nesse momento em que ela decidiu usar sua influência para orientar o uso harmônico dessa ferramenta. “Não é apenas uma questão de legislação para direcionar esse dilema. Temos que educar as pessoas. Somente quando tivermos consciência do potencial da tecnologia para transformar o mundo e aumentar as capacidades humanas, poderemos trabalhar como sociedade para garantir que isso seja feito a nosso favor”, ressaltou.

Inteligência Artificial  — Para ilustrar o poder que a tecnologia traz, e quebrar alguns mitos em relação à inteligência artificial, Ana Paula apresentou informações sobre o impacto que a IA já têm na sociedade atual. “Para que um sistema seja criado, precisa de uma certa quantidade de dados, e hoje temos 2,5 quintilhões. Com o 5G e a Internet das Coisas explorando toda capacidade das aplicações, vem muito mais coisa pela frente”. Ela disse ainda que 80% dos dados estão dentro das grandes empresas, que ainda não conseguiram explorá-los.

Entre os mitos que Ana Paula propôs quebrar, um exemplo é a afirmação que a Inteligência Artificial vai acabar com os empregos. Outro que foi desbancado é que se pode confiar cegamente na tecnologia por ela ser exata e objetiva na tomada de decisões. “Em machine learning, os algoritmos são construídos de modo que a máquina aprende observando padrões da base de dados. Portanto, para que seja cada vez mais confiável e assertiva, é preciso identificar e evitar vieses destas bases e de quem a programa”, ressaltou.

Outro mito é que a tecnologia está tornando o mundo pior. “A empresa em que trabalho tem o propósito de contribuir para o bem da humanidade. Como fazer a tecnologia tornar o mundo cada vez melhor?”. Ela citou o projeto P-Tech, desenvolvido pela IBM para fornecer aos alunos acesso à educação sobre novas tecnologias, permitindo que eles obtenham um diploma do ensino médio, técnico e superior em áreas como IA, nuvem e segurança cibernética. “Queremos capacitar rapidamente pessoas para que, quando entrarem no mercado de trabalho, estejam prontas”, explicou Ana Paula. Outro projeto da companhia é a Maratona Behind the Code, que reuniu cerca de 26.000 desenvolvedores de todo o país em busca de resolução de desafios de empresas parceiras. “Ideias simples podem gerar resultados altamente impactantes”, complementou.

Empoderamento — As iniciativas expostas por Ana Paula possuem um objetivo maior, que é empoderar as empresas para que elas sejam objetivas, definam seu futuro, e sejam empreendedoras com confiança. “Devemos tornar a tecnologia democratizada, acessível, disponível. O que temos que fazer é capacitar pessoas para extrair o melhor disso. Profissionais estão ficando defasados em relação às demandas e todos nós podemos ajudar as pessoas a se adequarem para serem bem-sucedidas nessa nova era”, disse. “Temos a missão de trabalhar para evitar resultado negativo. Meu propósito é esse”, enfatizou a executiva.

Mulheres na tecnologia — A questão da diversidade foi levantada durante o encontro, e Ana Paula destacou que a área de tecnologia precisa refletir a realidade da sociedade. “Temos que trazer cada vez mais grupos diversificados e isso inclui promover a equidade de gêneros no mercado de trabalho, além de outros grupos que ainda são minorias. A tecnologia cresce muito rápido e não podemos estar fora dessa oportunidade de mercado. Fazemos esforço direcionado e focado para trazer mais mulheres para esse mercado”, explicou.

Ela contou que sua experiência educacional e profissional passou por momentos em que o preconceito ainda era latente, e que hoje isso é cada vez mais coibido. “Temos que educar para que não exista distinção entre coisas de menino e de menina. Na IBM, em nossos programas com entidades de ensino e também com empresas parceiras, trabalhamos continuamente na educação para abrir os olhos em relação a vieses de diversidade”. Ana Paula destacou que durante a faculdade de Ciência da Computação era comum ouvir piadas em relação às mulheres que atuavam na área. “Isso gera ambiente contrário à inclusão. Vejo que, ainda hoje, mulheres que querem ser protagonistas têm que trilhar um caminho árduo”, lamentou.

Aprendizado — Em sua trajetória profissional, Ana Paula assumiu diversos desafios que sua carreira pediu, e entre eles destacou o período em que morou na China, entre 2015 e 2017, classificado por ela como rico profissionalmente, culturalmente e pessoalmente. “Fui sozinha, não conhecia ninguém, não falava chinês. Era como se tivesse caído num planeta desconhecido”.

Ela destacou que essa passagem pela China foi um momento determinante em sua carreira. “Vi que poderia ser a experiência mais frustrante da minha vida, ou a que mudaria tudo. Escolhi a segunda opção. A China se tornou aprendizado, mudei meu mindset”. Além de aprender muito, Ana Paula afirmou que esse período mudou sua forma de encarar desafios, dando aos problemas a oportunidade de solução.

Liderança de finanças — Diante de toda sua experiência, Ana Paula deu a dica de como os profissionais da área de finanças devem se comportar em meio a essa explosão de dados que está por vir e o impacto do crescimento tecnológico nos negócios. “Data e IA podem representar tanto uma enorme oportunidade como também um problema. Podem fazer do mundo um lugar melhor, mais saudável e produtivo, mas somente se as empresas e os consumidores confiam nas companhias que gerenciam os dados e criam os sistemas de inteligência artificial. É imperativo que os modelos de IA reflitam os valores humanos e sejam éticos e transparentes. Também devemos continuar saindo de nossos silos, melhorando o desequilíbrio de gênero em tecnologia e injetando um espírito de diversidade e inclusão nas empresas. É papel dos líderes, como os CFOs, estimular as pessoas a ganhar autonomia, dando a elas a oportunidade de desenvolvimento para traçar caminhos na carreira”, destacou.

(Reportagem: Bruna Chieco)

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