Aprendizados do momento e visão de futuro para os negócios são destacados por CFOs de três grandes empresas

Aceleração da transformação digital, valorização do capital humano e inovações nos modelos de negócios. Três grandes temas que ganham importância na agenda dos executivos de finanças não só neste momento, mas que também serão decisivos para os próximos anos.

Esses insights foram compartilhados na live “Painel CFOs: Momento atual”, realizada no dia 7 de maio. O evento reuniu o Vice-Presidente de Inovação do IBEF-SP e CEO do Cel.Lep, Alexandre Garcia, responsável pela moderação, e CFOs de três grandes empresas que atuam no País: Flavia Schlesinger, CFO na PepsiCo Brasil, representando o setor de alimentos; Tiago Azevedo, CFO do Mercado Livre Brasil, destacando o mercado de-commerce; e Vivianne Valente, CFO do Grupo Tigre, trazendo a visão do setor de materiais de construção civil.

Alexandre destacou a jornada de inovação que está sendo construída dentro do IBEF-SP, que em breve trará muitas novidades para os associados. Durante o painel, ele questionou os convidados sobre como enxergam o momento atual em suas respectivas indústrias, os desafios enfrentados na pandemia, e também suas visões de futuro e as oportunidades identificadas.

Foco nos aspectos controláveis –  Como os executivos operam em certo nível de incerteza, Flavia Schlesinger destacou que, em momentos como o que vivemos – de emergência sanitária -, o líder de finanças deve fazer uso de sua racionalidade e focar nos “aspectos controláveis” do ambiente no qual a empresa opera. 

Flavia relatou como a PepsiCo trabalhou em dois pilares que consolidam os valores da empresa: a) não poupou esforços e recursos para proteger a saúde dos colaboradores (física e mental); b) apesar de o setor de alimentos ter sofrido menos que outros devido ao auxílio emergencial, a PepsiCo tomou medidas para ajudar os pequenos varejos e comunidades vulneráveis que se encontravam em maior dificuldade, o que destaca a importância e a consideração com os parceiros da empresa. “A transformação digital já estava na agenda, mas a jornada foi acelerada”, acrescentou Flavia, ao destacar o atual cenário e desafios lançados pela pandemia.

Tendência sem volta – “Estamos vivendo um momento único em termos do que foi a adoção e a explosão […] do e-commerce e dos meios de pagamento”, destacou Tiago Azevedo, observando que esse movimento parece ser uma tendência sem retorno. O Mercado Livre foi positivamente impactado com a injeção de liquidez na economia viabilizada pelo auxílio emergencial e o crescimento do comércio eletrônico na esteira das medidas de isolamento social. As vendas pela internet cresceram 80% no mercado como um todo, e a participação do varejo online saltou dos 5% no período pré-pandemia aos atuais 10 a 12%.

Mudança de perspectiva – Vivianne Valente, por sua vez, destacou que o setor de construção civil conseguiu virar o jogo após um histórico não muito positivo, a exemplo da crise no período entre 2014 e 2018.  “Muitas empresas praticamente quebraram nesse período de retração econômica”, observou a CFO. O Grupo Tigre, assim como as demais empresas do setor, enfrentou desafios relacionados ao fato de muitos insumos, como a resina e outras matérias-primas, serem comoditizados e vinculados ao dólar, a necessidade da adequação da política de preços e muita atenção ao risco de ruptura da cadeia de abastecimento.

Em 2019, porém, houve o início de uma certa recuperação inesperada no setor da construção, auxiliada pela queda da taxa básica de juros. A pandemia em 2020 fez as pessoas repensarem seu estilo de vida e priorizarem “morar bem”, gerando mudanças nos hábitos das famílias que acabaram favorecendo o segmento. Vivianne salientou que esse movimento teve grande impacto positivo para a economia, pois a construção civil emprega muitos trabalhadores. Segundo a CFO, o setor vive um momento de reconstrução, com boas perspectivas para reorganização das companhias, direcionando a atenção da habitação para o saneamento. Alexandre frisou como esse marco do saneamento, que estava paralisado há décadas, é uma grande vitória para os cidadãos e para o Brasil.

Futuro do trabalho – “Como negócio, nós estamos tentando nos antecipar e não sermos reativos”, destacou Flavia, em relação à necessidade de a estratégia ir além da resposta aos movimentos da conjuntura macroeconômica. Para isso, a PepsiCo prevê investimentos para viabilizar novos formatos de interação com o consumidor e atuar sobre os impactos do novo formato de trabalho nas relações com seus colaboradores.

Sendo questionada por Alexandre sobre a aceleração da transformação digital, Flávia relatou que a empresa continuará apostando na adoção de novas tecnologias, buscando implementar sistemas que propiciem maior agilidade nas informações que baseiam as tomadas de decisão e o crescimento do e-commerce e novos meios de pagamento. Além disso, a CFO destacou a atenção para o desenvolvimento de sistemas que agilizem a comunicação, ao mesmo tempo em que tornam o todo o processo organizacional mais eficiente e, por consequência, mais econômico.

Inclusão digital do consumidor – Tiago afirmou que o potencial de crescimento do setor de comércio eletrônico é muito grande. Nota-se um movimento muito forte nesse sentido, impulsionado pelo consumidor que está criando novos hábitos de compra, com a proliferação de marketplaces, e a “bancarização” de pessoas que até então eram excluídas do mercado digital.

Com o desenvolvimento de novos meios de pagamento, da regulação e da estrutura logística no Brasil, os números do e-commerce tendem a se aproximar do patamar dos mercados norte-americano e de países asiáticos, que atingem marcas próximas dos 40%. Alexandre ressaltou que a questão logística no Brasil é muito complexa, seja pelas dimensões continentais, seja na questão do last mile que envolve a ponta do processo logístico, na qual muitas dificuldades são encontradas, como por exemplo, a grande quantidade de estradas de terra ou a questão da composição geográfica e hidrográfica do território nacional.

Sobre a questão da transformação e informatização fabril, Alexandre questionou como a Tigre está vivenciando esse tema. Vivianne destacou que a transformação digital, no âmbito fabril, é mais complexa devido às necessárias adaptações de maquinários. Contudo, ela observou que este é um caminho a seguir para melhorar a experiência de compra dos clientes, por exemplo, através do fornecimento de equipamentos eletrônicos como tablets para os vendedores nas lojas de materiais de construção.

Capital humano – A questão do trabalho remoto ainda permanece uma incógnita para os CFOs. Trata-se de uma questão relativamente nova e que possui alguns prós e contras que devem ser bem avaliados. Os participantes notaram como a adoção desse regime de trabalho pode criar problemas como ruídos de comunicação e paralelismos em reuniões, com possíveis perdas e distanciamento dos valores e da cultura da empresa por parte dos colaboradores. Ou seja, há preocupação com o engajamento dos funcionários, uma vez que o contato interpessoal é importante. Tiago afirmou que uma opção poderia ser a rotatividade organizada em um modelo híbrido, mas que a questão deve ser melhor definida ainda.

Alexandre introduziu o tema do capital humano e do perfil dos colaboradores necessários atualmente. Destacando a importância das pessoas para o crescimento das empresas, o moderador questionou os convidados sobre qual seria o diferencial que o candidato deveria possuir com relação ao comportamento e à atitude. A unanimidade marcou as opiniões dos CFOs. Todos apontaram a importância da mentalidade de colaborar-aprender, ou seja, as rápidas mudanças e incertezas que permeiam o ambiente social e empresarial fazem com que os profissionais devam estar sempre alertas e prontos a assimilar novos conhecimentos.

É preciso buscar o aprendizado contínuo, se adaptar às mudanças e colaborar com a organização agregando valor, entendendo o negócio da empresa e tendo uma visão mais global e menos setorial da organização. Tiago relata que o Mercado Livre está investindo muito em formação e capacitação de desenvolvedores devido à carência desses profissionais no mercado. Viviane finalizou notando a importância de poder contar com colaboradores que entendam o negócio e sejam propositivos.

Visão positiva para os próximos anos – No encerramento do encontro, Alexandre indagou sobre as perspectivas e preocupações dos convidados. Os CFOs compartilham uma percepção construtiva em relação ao futuro. Flávia salientou que a matriz da PepsiCo vê o Brasil com muito otimismo e potencial, apostando na transformação digital e em um grande crescimento dentro do mercado nacional.

Tiago informou que o Mercado Livre está constantemente investindo na expansão dos negócios e que a companhia vem dobrando de tamanho ano após ano. “Vamos fazer investimentos de R$ 10 bilhões neste ano para desenvolvimento da nossa logística, de nossos profissionais, desenvolvedores, ações de marketing, comerciais”, ressaltou ele, ao informar que a empresa prevê a contratação de 7 mil pessoas.

Viviane reforçou que a mudança de hábitos e a priorização do desejo de “morar bem”, têm feito os brasileiros investirem em suas casas. Esse fato, somado às construtoras recomeçarem a fazer lançamentos, tem aquecido a demanda por materiais de construção. Além disso, o marco do saneamento brasileiro e as recentes privatizações – como a da CEDAE – devem ter impacto positivo para o setor, que precisa estar preparado para fazer frente ao aumento da demanda que será gerada. Ela alertou sobre a importância de o País investir em saneamento, aspecto em que está muito atrasado: “a gente viu agora na pandemia como essa questão de saneamento e água é importante para a saúde”, completou.

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