Setores sofrem impacto negativo com crise e discutem o “novo normal” pós-pandemia

Em reunião da Diretoria Vogal do IBEF-SP realizada em maio por videoconferência, executivos financeiros de diversos setores compartilharam o impacto da crise do novo coronavírus (COVID-19) em seus negócios, e as perspectivas de recuperação. Segundo Serafim Abreu, presidente da diretoria executiva do Instituto, o compartilhamento de dados sobre os setores é essencial em um momento que todos estão ávidos por informação, tentando decifrar como será o “novo normal” daqui para frente. “O IBEF-SP rapidamente saiu de um modelo analógico, onde sempre valorizamos encontros face a face, e mudamos para esse modelo virtual, caminhando para o digital”.

Segundo ele, o novo modelo de relacionamento, daqui para frente, será híbrido. “Continuaremos nos encontrando, porque é importante ter esses relacionamentos. Mas também vamos manter o modelo virtual, trabalhando de forma híbrida, porque é uma ferramenta de produtividade”, complementou. Dentro ainda da reflexão de como serão os novos modelos de negócios após a pandemia, Francisco Loschiavo, diretor da CTI Global, empresa especializada em soluções de gestão de performance financeira e operacional, e patrocinadora do evento, compartilhou quais as ferramentas que os CFOs podem aplicar para tentar obter esse modelo preditivo.

Loschiavo apresentou o carro-chefe da CTI, que são os modelos integrados de simulação financeira e de previsão do futuro. “Os grandes desafios são projetar até quando os caixas vão aguentar, prever cenários, e ver os impactos de gerenciar custo de pessoal, e como isso se relaciona com o caixa”. Segundo ele, as companhias precisam de modelos integrados de simulação para fazer cenários rápidos, e a CTI nasceu para suprir essa demanda. “Os modelos projetam receita e, com base no volume, o sistema consegue projetar gastos variáveis, fazer movimentação de inventários, medir prazo médio de pagamento de fornecedores, e saber como as despesas afetam custos”.

A ideia é ter ferramentas extremamente rápidas, mudando qualquer premissa em qualquer área para medir o reflexo disso no caixa. Loschiavo disse ainda que a interrelação entre venda, receita e custeio pode medir resultados em balanço e fluxo de caixa. “Especificamente agora, a ferramenta serve para fazer cenários de impactos estratégicos e ver como isso afeta a companhia”.

Rodada de setores – A 1ª Vice-Presidente do IBEF-SP e sócia da PwC, Luciana Medeiros, conduziu a rodada de setores, que começou em telecomunicações, com Gustavo Matsumoto, CFO da Algar, contando o que o grupo tem feito para enfrentar a pandemia. “O grupo, que atua em telecomunicações, TI, entretenimento e agronegócios, tem um espectro amplo da pandemia, e desde o início priorizamos maior segurança das pessoas para dar continuidade aos negócios e preservar caixa”, disse.

Além disso, Matsumoto reiterou que nos últimos 40 dias o grupo fez inúmeras simulações, estabelecendo protocolos de atuação dependendo do cenário e pontuando como está a situação da companhia. “Temos planos de ação estabelecidos para cada um desses protocolos. Como dedicamos muito tempo para fechá-los, rodando centenas de cenários, estamos acompanhando os early signs para cada um dos negócios, o que pode mover nossa ação de um protocolo para outro”. O principal negócio do grupo Algar é a área de telecomunicações que, segundo Matsumoto, tem se mostrado resiliente, passando incólume, com poucos efeitos da crise, baixa inadimplência, e receita crescendo. “A preocupação do negócio é a duração da pandemia”, disse. A Algar Tech, por outro lado, tinha um ponto de atenção sobre a equipe, mas implantou um plano de trabalho para home office bem sucedido. “Até o final do mês teremos 90% da operação em teletrabalho”, disse.

A Algar está ainda detalhando o plano de retomada de suas empresas, estreitando qual será o “novo normal” para cada uma das operações. “A única certeza que temos é que não vamos operar nenhum dos nossos negócios da mesma forma de 60 dias atrás”. Ele citou ainda oportunidades da retomada em novos serviços, novas técnicas, e também em M&A.

Viagem e hotelaria – Os negócios de turismo sofrem forte impacto com a crise, e isso atinge principalmente o setor de viagem. Para falar sobre o setor, Alex Malfitani, CFO da Azul, destacou a posição da companhia aérea. “Estamos lutando para preservar o negócio. Terminamos 2019 com o melhor ano da história da Azul e uma das companhias aéreas mais rentáveis do mundo. Agora, nossa demanda caiu mais de 50%”, disse. O fato de ter um modelo mais saudável, contudo, dá apoio à recuperação, disse Malfitani. “O apoio dos nossos stakeholders também nos permite ter um plano de recuperação. Na medida em que a demanda for voltando, vamos reconstruir nossa malha”. A companhia tinha mais de mil voos por dia, e em abril registrou apenas 70 voos por dia, subindo em pouco no mês de maio para 120 voos. “Estimamos que, na recuperação, a gente voará 40% do que estávamos voando no período pré-COVID”, complementou Malfitani.

Flávia Buiati, vice-presidente financeira da Atlântica Hotels, falou sobre o setor de hotelaria e suas dificuldades por também ser um dos negócios mais impactados. “O setor como um todo, no mês de março, teve redução de taxa de ocupação em 35%. Na Atlântica, o faturamento caiu em abril, e estamos com apenas 60% dos hotéis abertos. De forma geral, tivemos que tomar decisões mais difíceis de rescisão. A Atlântica especificamente reduziu 30% do quadro de funcionários em hotéis e 50% dos funcionários foram suspensos. Reduzimos jornada, salário, e uma parte bem menor está trabalhando full time“, disse.

A decisão de manter alguns hotéis abertos, contudo, veio do fato de que na medida em que as pessoas ainda estão viajando, precisam de hospedagem. Mas Flávia reitera que o “novo normal” vai impactar muito o setor. “Quando olhamos para outros países, já existem novos protocolos de limpeza, de atuação, de serviços de alimentos e bebidas, e estamos acompanhando, pois serão medidas necessárias conforme as pessoas voltem a viajar”. A perspectiva é ter um retorno pequeno a partir de junho, com pouco efeito no segundo semestre, voltando a ver índices de 2019 se repetirem apenas em 2022. “Nossa retomada começa agora e segue a partir de 2021 mais forte, mas em ritmos menores do que gostaríamos. Estamos trabalhando para garantir a sobrevivência desse segmento”, complementou.

Mauro Rial, CFO para América do Sul da Accor, também falou sobre o setor com base em sua atuação na rede francesa de hotéis, que opera no Brasil há 40 anos. “Desde março o market cap das redes hoteleiras cotadas caiu em torno de 40%”, disse. “Mas a crise pegou a Accor com uma posição de caixa robusta, então esperamos sair fortalecidos. Na América do Sul, estamos aproximadamente com 80% dos nossos hotéis fechados, mantendo participação e posicionamento em todos os mercados em que estamos presentes no Brasil”. Rial disse que a Accor está redefinindo o “novo normal” da hotelaria. “Por exemplo, precisamos dar aos hóspedes a segurança de que estamos aplicando estritas medidas de higienização. Trabalhamos com várias companhias aéreas para ter protocolos unificados, e estamos propondo ao setor uma certificação com a Bureau Veritas para reforçar ainda mais este ponto”.

A Accor acredita que a abertura dos hotéis deve ocorrer gradualmente desde o mês de maio, sendo que sobre o último trimestre de 2021 estima atingir os patamares de atividade de 2019. “Também percebemos muita solidariedade em termos gerais, entre distintos players, os governos tomando diversas medidas para apoiar as empresas e aos mais desfavorecidos, por exemplo na Accor os acionistas renunciarem aos dividendos e com isso foi estruturado um fundo para apoiar pessoas com dificuldades relativas ao COVID-19. Essa solidariedade, como sociedade, vai nos ajudar a sair fortalecidos dessa crise”, complementou.

Já a Aviva, líder no setor de resorts, obteve um impacto ainda maior por ter 100% do seu complexo fechado por decreto. Renata Theil, CFO da companhia, complementou que há uma preocupação grande em relação a manutenção do emprego no setor, pois o setor de turismo representa 8% do PIB e gera 6 milhões de vagas. “Estamos trabalhando com esforço para encabeçar soluções e interceder pelo setor de turismo. São necessárias além das medidas de contenção (como a MP 936) medidas de sobrevivência e recuperação para dar continuidade a esse setor e auxiliar na retomada “, destacou.

Energia – Camila Abel, Diretora de Tesouraria e Riscos da AES Tietê, destacou o impacto da crise no setor de geração de energia. Segundo ela, a primeira impactada é a distribuidora. “Ela é a ponta que arrecadadora do setor, está sofrendo com o aumento da inadimplência e redução do consumo. A inadimplência das distribuidoras disparou para 13%, muito superior ao que costumam ter”. Camila ressaltou que o setor está aguardando suporte governamental. “Se a distribuidora não tiver condições de manter a sua liquidez, não conseguirá arcar com as suas obrigações incluindo o pagamento das geradoras pelas compras de energia em leilões, desestruturando a cadeia como um todo incluindo empréstimos que tenha essas contratos em garantia, por isso a importância de se conceder empréstimo”, disse.

Na AES Brasil foi montado um comitê de gestão de risco no início de março para filtrar as ações de todas as áreas associadas aos efeitos gerados pelo covid-19 e assim ser mais ágil na atualização do Mapa de Riscos da Companhia, que já é monitorado pela companhia há muitos anos com as suas métricas de probabilidade e impacto dos riscos prioritários. “Especialmente, para mitigar o risco de crédito de clientes no mercado livre de energia,  temos um modelo interno que define o rating e exige a garantia do cliente de acordo com a política interna de risco, além de ter limites de concentração, o que permitiu construir um portfólio bastante diversificado e resiliente a esse momento”.

Camila reiterou que em pedidos de renegociação, é preciso considerar o risco de crédito e o risco de mercado existente na liquidação dessa energia em excesso. “Portanto, no setor esses dois riscos têm uma relação muito próxima. Reforçamos nossa liquidez com uma captação de curto prazo, sendo suficiente para arcar com todas as nossas obrigações, mesmo em um pior cenário de stress”. Além da gestão muito próxima dos riscos, a empresa tem uma agenda positiva, com a divulgação do resultado do 1º trimestre além de planos de crescimento orgânico e por aquisições de ativos. “Dividimos as equipes para sermos capazes de trabalhar nas urgências sem deixar o foco no crescimento e bom desempenho dos negócios”, destacou.

Consumo – Dentro do setor de consumo, Adolpho Souza Neto, CFO para América Latina da Whirlpool, explicou que o segmento de eletrodomésticos foi afetado a partir de março, mas ainda assim, no primeiro trimestre acumulado, o setor registrou crescimento. “No mês de março já houve uma queda em relação ao ano passado, e em abril, a queda acentuou-se de forma expressiva. Estamos olhando cada dia, cada semana, cada mês, dada as incertezas do cenário”, disse. Para enfrentar a crise, a Whirlpool elegeu como prioridades a proteção dos empregados, com home office e protocolos de segurança nas fábricas; proteger o caixa e os empregos a partir da adoção da Medida Provisória 936; e servir os consumidores com as fábricas funcionando.

Adolpho Souza Neto ressaltou que a empresa tem trabalhado na redução de despesa e na manutenção do faturamento em todas as variáveis possíveis. “Trabalhamos com e-commerce e clube de compras, que está crescendo em comparação ao ano passado, pois temos condição de manter entrega, compensando parcialmente as perdas com o B2B do varejo físico. Na parte de caixa, começamos a crise em uma posição confortável não só no Brasil, mas mundialmente, e estamos bem preparados para atravessar a tempestade, mas o ponto de atenção é o “contas a receber”, com aumento da inadimplência. Estamos monitorando constantemente o risco de crédito, de maneira a continuar operando em parceria com os nossos clientes”, complementou.

Na área de alimentos, produtos de higiene e limpeza, a Unilever continua oferecendo produtos essenciais de seu portfolio, mantendo assim o mercado abastecido. Um dos principais impactos refere-se ao atendimento B2B e algumas linhas especificas de produtos cujo abastecimento dependente da reabertura do comércio, especialmente restaurantes e bares. A Unilever também tem contribuído com as comunidades mais desamparadas, doando produtos essenciais. Alexandre Martinez, Diretor Financeiro da empresa, destacou que nesse momento a leitura do indicador de confiança do consumo apresenta-se em queda reflexo também da crescente taxa de desemprego, colocando o mercado de consumo em um patamar diferente.

“O câmbio coloca uma pressão sobre os custos de forma desproporcional, pois boa parte da nossa matéria-prima está atrelada ao dólar”, explicou. Em relação aos protocolos globais de segurança, a empresa está operando com todas as funções administrativas em Home-Office e a priorização máxima nas fábricas, centros de distribuição e ponto de venda no sentido de manter a segurança dos empregados e ao mesmo tempo, garantir abastecimento aos consumidores. “O distanciamento social acontece inclusive no transporte dos funcionários até as fábricas”.

Segundo ele, a demanda da segunda semana de março foi positiva no mercado de consumo de produtos de primeira necessidade por conta de um abastecimento inicial da população frente à crise, mas essa curva tende a voltar à normalidade em abril e maio. “Temos uma preocupação com otimização do caixa e também registramos crescimento nos canais on-line”, destacou Martinez. “Nosso comitê de crise está estabelecido desde o início da pandemia e ao mesmo tempo, buscamos oportunidade de rever processos, fundamentos do plano de negócios, procedimentos de gestão de crédito e capacidade para atender aos consumidores com a melhor equação de valor uma vez que após passarmos por este período, o mesmo  deverá voltar diferente, sendo mais criterioso na forma de consumir, e produtos relevantes a um preço acessível será um patamar de escolha”, disse.

Na área de cosméticos, José Filippo, CFO da Natura, comentou que o negócio também tem sido afetado, porém, por ser uma empresa global, o timing do impacto é diferente. “Vimos uma resiliência de alguns canais, especialmente o digital. Nosso primeiro trimestre foi afetado parcialmente. Também sofremos na Ásia e na Europa e, por outro lado, tivemos aumento exponencial do e-commerce”, destacou. Ele disse que as lojas fechadas conseguiram recuperar grande parte da receita via vendas digitais. “Quase todas as consultoras de vendas estão fazendo treinamento on-line, e hoje temos catálogo digital”.

Na Ásia e na Europa já há reabertura de lojas físicas com alguns requisitos, enquanto na América Latina todas as fábricas estão funcionando, mas o e-commerce continua forte. “Em termos de gestão, entendemos que o segundo trimestre será afetado, e estamos reduzindo despesas, congelamos contratações e promoções, e em termos de caixa, as lojas fechadas estão renegociando aluguéis. Em CAPEX, vamos priorizar continuidade de negócio e o digital. Olhamos o resto do ano com uma volta suave”, complementou Filippo.

Educação Na área de educação básica, há forte migração para on-line, com pedidos de desconto, antecipação de férias, e o nascimento de nova escola, segundo José Claudio Securato, CEO do Saint Paul, que encerrou a rodada como conselheiro do IBEF-SP. “Existe uma expectativa de fechamento de 50% das escolas privadas no estado de São Paulo. Quem não está com capacidade de migrar para on-line perde alunos, e há um desarranjo. Universidades privadas vão bem, pois possuem capacidade digital. Já as públicas, 70% estão fechadas, sem capacidade de entrega e de atender o digital”.

Ele destacou que a Saint Paul atua com o modelo digital há dois anos, e recentemente teve migração brutal para esse modelo. “Abrimos nossa plataforma LIT gratuitamente por 30 dias, e as pessoa passaram também a assiná-la”, disse. Ele comentou ainda a preocupação com a economia do país, chamando atenção para o consumo de famílias, investimento de empresas, saldos de importação e gastos do governo. “Exportação está indo bem. O governo está gastando, mas o consumo e investimento caíram. Com a queda do PIB, que pode chegar a 5%, vamos continuar tendo mercado forte em alguns setores, mas em 2021, os gastos do governo não poderão ser tão altos”, ressaltou.

Segundo Securato, a retomada de consumo e investimentos em empresas será lenta. “Essa crise gerou uma deflação muito grande e juros muito baixos. O câmbio não cede. Neste encontro muito se falou sobre manter as pessoas em segurança e saudáveis, proteger o caixa, protocolos para atividades, oportunidades de negócios e solidariedade com as pessoas por meio de projetos sociais. Mas a grande mudança que gostaria de destacar desta reunião frente nosso último encontro foi a mudança de um comitê de crise para o desenho de uma nova normalidade que se instala para os negócios”.

 

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