Tesouraria e Riscos: Especialistas debatem o papel da Tesouraria no Agronegócio

Segundo dados da USDA, Brasil tem a maior projeção de crescimento de produção do agronegócio no mundo, estimado em 41% até 2026. Vocação para pesquisa e produtividade são fatores chaves do sucesso brasileiro. 

No último dia 14 de setembro, a Comissão Técnica Tesouraria e Riscos do IBEF-SP promoveu a reunião aberta “A Tesouraria no Agronegócio Brasileiro”, com palestras de executivos de atuação internacional e especialistas da área. Moderada por Igor Bueno, líder da referida Comissão, a reunião contou com a participação de Bruno Damasceno, Líder de Tesouraria para a América Latina da Corteva Agriscience, e Leandro Wendt, Diretor para a América Latina de Tesouraria, Crédito e Trade da Nutrien Soluções Agrícolas. 

Igor Bueno iniciou o evento destacando a importância do agronegócio para o país, que é responsável por quase um terço do PIB nacional – Produto Interno Bruto. E ressaltou que esse evento representa uma introdução, buscando realizar uma aproximação do assunto dentro do contexto de tesouraria

Força do agro – Bruno Damasceno informou que, a depender da fonte, o agronegócio representa de 25 a 30% do PIB, o que em números seria algo em torno de R$ 1,9 trilhão de reais. “Se isso fosse um país, já seria maior que a Argentina”, frisou.  

Segundo Bruno, o setor é formado por diversas estruturas: a cadeia de insumos, a própria agropecuária – produtos produzidos –, além de todas as atividades da indústria e dos serviços relacionados a ele. Os produtos líderes em valor bruto da produção (2020) são a soja, que representa R$ 176 bilhões; a carne bovina, R$ 140 bilhões; o milho, R$ 91 bilhões; seguidos pelo leite, cana-de-açúcar, frango, café e algodão. 

Crescimento – Nos últimos 10 anos, o Brasil vem crescendo exponencialmente em termos de produção, graças à biotecnologia, ao desenvolvimento e ao profissionalismo do mercado. Segundo dados da CONAB, nesse período a produção de grãos cresceu 339%, enquanto a área plantada cresceu apenas 82%.  

O Brasil lidera (dados de 2020) a produção e a exportação de suco de laranja, café, soja e açúcar, com destaque para o suco de laranja e para a soja, que representam 72% e 51% do total das exportações mundiais, respectivamente. “Tudo isso mostra todo o profissionalismo e desenvolvimento de uma série de fatores do agronegócio no Brasil”, apontou Bruno. 

Enfim, foram apresentados dados da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), segundo a qual o Brasil é a nação que, a larga vantagem, mais crescerá em termos de produção de alimentos até o ano de 2026-2027. A projeção é que o País registre um incremento de 41%, seguido pela China para a qual se projeta um crescimento de apenas 15%. 

Concentração de mercado – No Brasil é possível identificar dinâmicas diferentes a variar da região, apontam Bruno e Leandro. Geralmente, as regiões Sudeste e Sul apresentam uma agricultura tradicional, vinculada a uma maior pulverização de distribuidores, de produtores e de área por produtor. Já nas regiões Centro-Oeste e Norte há o predomínio de grandes produtores, grandes áreas e grandes culturas como algodão e soja. Nesse caso, é natural que exista menos competição e mais concentração porque os volumes são muito maiores.  

Sob o ponto de vista da indústria química e de biotecnologia, existem grandes competidores globais que investem bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento durante anos. Como resultado desse trabalho, pode-se identificar setores com um baixo nível de competição, com produtos altamente efetivos e eficientes, gerando uma barreira à entrada de novos players. 

Produtividade e sustentabilidade – Bruno disse acreditar que a produtividade é a grande vocação do Brasil. O potencial de crescimento não está necessariamente vinculado a um aumento da área cultivada, podendo ser basicamente atingido com a eficiência produtiva. “A produtividade é uma soma de fatores: biotecnologia, biossegurança, digitalização, manejo etc. Esse é o turning point, é a mudança do jogo que se pôde observar nos últimos anos”. 

A sustentabilidade não é deixada de lado. Conforme afirmou Leandro Wendt, existe uma preocupação com o tema de uma forma geral no agronegócio, sendo possível observar nos últimos anos uma reinvenção de certas culturas ou mesmo a migração de algumas que exigem muito do solo para outros tipos de culturas mais benéficas. “Atualmente, na produção de cana-de-açúcar nada é desperdiçado. Nas usinas que possuem maior tecnologia, o que sobra do bagaço da cana produz a energia que retroalimenta a usina. É o típico exemplo de uma cultura que tem se reinventado”. 

Desafios da Tesouraria no ambiente agro – Os especialistas destacaram alguns pontos de atenção para um bom gerenciamento das finanças no setor do agronegócio. Os profissionais que operam nesse negócio devem entender as características dos altos ciclos de caixa e da sazonalidade, que geralmente não se apresentam em setores marcados por relações comerciais de menor duração.  

Os produtores podem ter períodos de produção que variam de 200 a 300 dias que se somam a outros 250 ou 300 dias para completar a venda e o recebimento, ou seja, um ciclo de caixa altíssimo. Alertam, assim, que o profissional deverá ter especial atenção às ferramentas de financiamento ao cliente e de financiamento ao fornecedor para realizar um bom gerenciamento e extrair o melhor resultado final. [LW1] 

Tesouraria competitiva – Foram discutidas algumas formas de como a tesouraria no agronegócio pode fazer a diferença no aspecto da competitividade. Segundo Bruno, “a tesouraria pode ser o grande conector com o que está acontecendo na digitalização com o mercado de capitais para justamente ajudar nesses altos ciclos de caixa e de sazonalidade.” 

Para obter competitividade, a empresa deve ter uma gestão eficiente sob uma perspectiva de custos, negociação com fornecedores e níveis de estoque. “As ferramentas financeiras não podem ser consideradas somente sob uma perspectiva de caixa. Elas devem ser cost efficients, devem fazer sentido economicamente de uma forma geral” apontou Wendt.  

Análise de risco – Para os especialistas, o segredo é a intercomunicação de preços, juros, câmbio e commodities. “É um desafio pois esses aspectos estão relacionados. Pode ser que em um período o câmbio influencie as commodities e, no mês seguinte, são as commodities que influenciam o câmbio. O grande segredo é como trabalhar essas interconexões e seus efeitos dentro da tesouraria”, avaliou Bruno. 

“Como qualquer empresa, é preciso ter uma visão do todo, do enterprise risk management, do corporate finance. Deve-se estudar a quais fatores de risco se está exposto no dia a dia para adotar alguma estratégia, seja de derivativos, de commodities, juros etc.”, completou Leandro. 

Papel do cooperativismo – Bruno disse acreditar que o cooperativismo tem um papel muito importante e é muito forte no Sul do país, tendo sido um modelo de crescimento que gerou organizações extremamente competitivas.  “O cooperativismo tem um papel muito forte em toda essa profissionalização e organização do setor”. 

Leandro destacou a importância da cooperativa no auxílio ao pequeno produtor. “Ela dá ao pequeno agricultor poder de barganha, respaldo de financiamento e de preço. Ajuda na negociação dos insumos, no capital de giro, no escoamento da produção. Ela aquece bastante essa economia, mas muito mais focada no pequeno e médio agricultor”, finalizou. 


 [LW1]Isso ocorre em poucos casos… culturas de capex intensivo e geralmente não é muito comunicado ao mercado, avaliar se manter ou adequar para algo mais tradicional como uma média… 240-300 dias

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